Portugal encerrou, em 25 de setembro de 2026, a 16.ª edição do exercício REPMUS, uma iniciativa internacional dedicada a testar tecnologias não tripuladas em operações marítimas. Realizado no Centro de Experimentação Operacional da Marinha, em Troia, o encontro reuniu mais de 4.000 participantes e avaliou mais de 500 sistemas não tripulados, segundo o balanço divulgado pela Euronews. A Marinha Portuguesa organizou a iniciativa em conjunto com a Organização do Tratado do Atlântico Norte, conhecida pela sigla NATO, e a Agência Europeia de Defesa. A pergunta que o REPMUS ajuda a responder é direta: como fazer drones de origens diferentes trocarem informações e atuarem juntos quando a missão envolve grandes distâncias, vários meios navais e decisões em tempo real?
Portugal transforma o exercício em laboratório internacional
Essa escala colocou o REPMUS, sigla em inglês para Robotic Experimentation and Prototyping with Maritime Unmanned Systems, no centro da experimentação internacional de tecnologias navais. O exercício ocorreu no Centro de Experimentação Operacional da Marinha, em Troia, e contou com 26 países participantes e 10 observadores. Os testes abrangeram drones aéreos e de superfície, enquanto a dimensão subsuperficial levou equipamentos para debaixo da água. Para entender a dimensão da iniciativa, a [Euronews](https://pt.euronews.com/2026/09/25/repmus-portugal-volta-a-ser-palco-mundial-de-experimentacao-de-tecnologia-de-drones) descreveu o encontro como uma oportunidade para testar protótipos, inteligência artificial e a integração entre sistemas tripulados e não tripulados.
Além da presença militar, a composição do evento mostra que o REPMUS funciona como uma mesa de negociação tecnológica, na qual cada participante leva uma capacidade e precisa demonstrar como ela conversa com as demais. Outra fonte, a Marinha da Bélgica, informou que a edição de 2026 reuniu mais de 1.500 participantes, 36 marinhas nacionais, 60 empresas, 13 universidades e cinco organizações da NATO. A mesma fonte registrou a avaliação de mais de 300 sistemas não tripulados. Os números publicados são diferentes, mas ambos os levantamentos apontam para uma iniciativa multinacional que combina forças armadas, indústria, universidades e organizações de defesa, criando a base humana para a interoperabilidade.
Interoperabilidade coloca drones em diálogo
Essa diversidade de participantes só produz valor quando os equipamentos conseguem atuar dentro de uma mesma lógica operacional. No REPMUS, interoperabilidade significa fazer sistemas de fabricantes, países e ambientes diferentes trocarem dados e trabalharem de forma coordenada. Um drone que voa, uma plataforma que navega na superfície e um veículo que opera debaixo d'água precisam enviar informações compreensíveis para os sistemas de comando e controlo. O exercício concentrou-se justamente nessa ponte entre tecnologias tripuladas e não tripuladas, com uso de inteligência artificial e avaliação de protótipos em condições próximas da realidade operacional.
Na prática, os sistemas de comando e controlo funcionam como o ponto de encontro das informações coletadas pelos drones e das decisões tomadas pelas equipes. O REPMUS incluiu testes de guerra de minas e guerra anti-submarina, atividades nas quais localizar um objeto ou acompanhar uma ameaça exige dados consistentes entre diferentes plataformas. Também foram avaliados recursos de monitorização ambiental e soluções para coordenar os meios empregados. A tecnologia deixa de ser uma peça isolada quando seus dados podem entrar no mesmo fluxo de decisão, e é essa conexão que transforma protótipos separados em uma capacidade operacional combinada.
Da experimentação técnica à operação marítima
Essa integração foi testada em uma área marítima extensa, o que levou o exercício para além de uma demonstração restrita a um único ponto. O REPMUS 2026 ocupou mais de 400 milhas náuticas entre o Cabo Espichel e Sines e envolveu 14 navios militares de apoio. A dimensão geográfica ajuda a explicar por que os sistemas não tripulados despertam interesse das marinhas: o comandante Luís Quaresma dos Santos destacou a necessidade de multiplicar a força naval para cobrir a grande área de responsabilidade marítima de Portugal. Nesse arranjo, os drones ampliam a capacidade de vigilância e coleta de informações sem exigir que cada tarefa seja executada diretamente por uma embarcação tripulada.
O alcance do exercício também aparece na variedade de missões testadas. A guerra de minas exige localizar e avaliar ameaças submersas, enquanto a guerra anti-submarina depende da observação de áreas nas quais uma embarcação tripulada pode ter limitações de alcance ou exposição. Em paralelo, a monitorização ambiental mostra que os mesmos sistemas podem ser empregados para coletar dados sobre o ambiente marítimo. A combinação dessas tarefas com os sistemas de comando e controlo permite verificar se a tecnologia funciona apenas como demonstração ou se consegue participar de uma cadeia operacional mais ampla.
O que o Greyshark revela sobre a inteligência artificial submarina
Esse esforço de conexão ganhou um exemplo concreto na participação da Marinha Alemã. A Bundeswehr tratou o REPMUS 2026 como um laboratório experimental para avaliar tecnologias capazes de proteger águas alemãs e mencionou o interesse em aplicações para o Mar Báltico. Entre os equipamentos apresentados estava o Greyshark, uma unidade subaquática multissensor equipada com inteligência artificial para operações em águas profundas. O termo multissensor indica que o equipamento reúne diferentes formas de percepção, enquanto a inteligência artificial permite processar os dados coletados para apoiar a operação.
A presença do Greyshark conecta a experimentação de drones ao problema mais amplo de operar em ambientes nos quais a comunicação, a visibilidade e o acesso humano são limitados. Um veículo subaquático precisa compartilhar informações com os demais participantes da missão para que seus dados tenham utilidade além do próprio equipamento. Por isso, a avaliação de uma unidade como o Greyshark não depende somente de sua capacidade de mergulhar ou de seus sensores, mas também da maneira como ela se integra aos sistemas de comando e controlo. O exercício transforma essa integração em uma questão observável, testada em operações e não apenas descrita em especificações técnicas.
Por que os números aparecem em escalas diferentes
Os dados divulgados sobre a edição de 2026 apresentam mais de 300 sistemas não tripulados em uma fonte e mais de 500 sistemas em outra. Em vez de escolher um número e apagar o outro, é mais preciso registrar que os levantamentos publicados adotam contagens diferentes para a mesma edição. A fonte belga informou a avaliação de mais de 300 sistemas, abrangendo drones subaquáticos e helicópteros não tripulados. A Euronews informou mais de 500 sistemas testados em Portugal, ao lado de mais de 4.000 participantes, 26 países e 10 observadores. A diferença não muda o ponto central: o REPMUS trabalhou com centenas de sistemas de origens multinacionais.
Essa escala permite comparar soluções em condições próximas da realidade operacional e observar como elas se comportam quando precisam dividir informações e tarefas. A fonte belga descreveu a participação de 60 empresas, 13 universidades e cinco organizações da NATO, enquanto a Marinha Alemã apresentou uma aplicação específica de inteligência artificial em uma unidade submarina. A conexão entre esses elementos dá ao evento uma função que vai além da exposição de equipamentos: protótipos podem ser colocados em contato com operadores militares, pesquisadores e outros sistemas. O resultado buscado é aumentar a maturidade tecnológica das soluções antes de sua adoção em operações reais.
A caixa de ferramentas para entender o REPMUS
Para o leitor que acompanha tecnologia, o primeiro conceito a guardar é o de interoperabilidade: uma plataforma isolada pode cumprir sua tarefa, mas uma força naval precisa que diferentes equipamentos compartilhem dados e recebam comandos compatíveis. O segundo é o de sistemas de comando e controlo, responsáveis por organizar as informações e apoiar as decisões das equipes. O terceiro é a experimentação, que permite colocar protótipos aéreos, de superfície e subsuperfície em atividades como guerra de minas, guerra anti-submarina e monitorização ambiental. O REPMUS reúne esses três elementos em uma mesma iniciativa, aproximando desenvolvimento técnico e uso operacional.
O próximo passo indicado pelo próprio formato do exercício é continuar avaliando a integração entre sistemas tripulados e não tripulados, com inteligência artificial, sensores e redes de comando e controlo trabalhando no mesmo fluxo. A edição de 2026 levou essa avaliação para uma área de mais de 400 milhas náuticas, apoiada por 14 navios militares e por participantes de dezenas de países e organizações. Para as marinhas envolvidas, o efeito prático é testar como multiplicar a vigilância e a capacidade operacional em grandes áreas marítimas. Para quem observa a evolução dos drones, o REPMUS deixa uma lição clara: o valor de cada máquina depende também das pontes digitais que permitem que ela converse com as outras.