A distância entre o paciente e o atendimento especializado é o problema que a ARPA-H quer enfrentar com o programa ADVOCATE, sigla em inglês para Agentic AI-Enabled Cardiovascular Care Transformation. A iniciativa foi anunciada nos Estados Unidos com a proposta de desenvolver um agente clínico de inteligência artificial capaz de apoiar o cuidado cardiovascular durante as 24 horas do dia, especialmente em casos de insuficiência cardíaca e histórico de ataque cardíaco. O projeto foi apresentado como uma tentativa de criar o primeiro sistema de IA clínica do mundo com autorização da FDA para essa finalidade, conectando tecnologia e atendimento contínuo onde o acesso ao especialista pode ser limitado.

O investimento por trás da proposta

O tamanho do programa ajuda a explicar por que a iniciativa recebeu atenção antes mesmo de chegar à rotina dos hospitais. O ADVOCATE terá valor total estimado em US$ 62,7 milhões ao longo de quatro anos, dos quais US$ 33,7 milhões estão previstos para o primeiro ano. O dinheiro será usado para desenvolver os agentes, avaliar seu funcionamento e preparar a adoção em sistemas de saúde, em vez de financiar apenas um aplicativo isolado para pacientes. O comunicado da ARPA-H apresenta o programa como uma iniciativa estruturada em várias frentes, justamente porque o atendimento cardíaco envolve tecnologia, supervisão e integração institucional.

Essa divisão também está ligada ao problema que o programa pretende resolver: a barreira geográfica ao acompanhamento cardiovascular. O foco inicial está em pessoas com insuficiência cardíaca e em sobreviventes de ataques cardíacos, grupos que precisam de acompanhamento contínuo para ajustar o cuidado ao longo do tempo. A proposta prevê a combinação de registros digitais de saúde com dispositivos vestíveis, aqueles equipamentos usados no corpo para coletar sinais e informações de acompanhamento. A lógica é levar parte do cuidado para mais perto do paciente, criando uma ponte digital entre os dados registrados no tratamento e as decisões acompanhadas pela equipe de saúde.

Como funciona a ideia de uma IA agente

O termo agentic AI descreve uma inteligência artificial que executa etapas de uma tarefa com certo grau de autonomia, em vez de apenas responder a uma pergunta isolada. No ADVOCATE, essa capacidade deverá ser aplicada a ações como ajustar consultas e medicamentos, sempre dentro das regras de cuidado definidas para o paciente. A proposta também inclui apoio à dieta e aos exercícios, transformando o sistema em uma espécie de membro digital da equipe clínica. A diferença prática está no acompanhamento sequencial: o agente recebe informações, identifica a próxima ação prevista e ajuda a organizar o cuidado, em vez de entregar somente uma recomendação solta. O programa oficial da ARPA-H descreve esse objetivo como a criação de um extensor do trabalho clínico para doenças crônicas.

Autonomia, porém, não significa ausência de controle. O programa prevê uma segunda camada de inteligência artificial, descrita como um supervisor, para monitorar a segurança e a eficácia dos agentes depois que eles forem implantados clinicamente. Essa arquitetura coloca a verificação no centro do projeto: enquanto uma frente atua próxima do paciente, outra acompanha se as decisões e os resultados permanecem dentro dos parâmetros esperados. A meta anunciada para os produtos voltados ao paciente é obter autorização da FDA em até 24 meses depois da concessão dos contratos. O prazo transforma a pesquisa em um projeto regulatório, com exigências de validação que precisam acompanhar o desenvolvimento desde o início.

Sete organizações em três frentes técnicas

A primeira frente concentra os agentes que terão contato direto com as necessidades do paciente. A Atman Health aparece entre as organizações selecionadas para desenvolver essa camada, que deverá transformar dados clínicos e orientações de cuidado em interações mais frequentes com quem convive com uma doença cardíaca. A presença de uma empresa dedicada a esse contato mostra que o programa não foi desenhado apenas como uma ferramenta interna para médicos. O paciente ocupa a porta de entrada da proposta, e a tecnologia precisa ser construída para acompanhar sua rotina de forma compreensível, antes que as informações avancem para as demais etapas do cuidado.

Na mesma frente voltada ao paciente, a Tempus AI também foi selecionada para trabalhar no desenvolvimento dos agentes clínicos. A organização integra a estrutura destinada aos produtos que deverão buscar autorização regulatória, enquanto outra participante, a Updoc, completa esse grupo de desenvolvimento. As três organizações foram reunidas em uma área técnica dedicada à interação com o paciente, mas o programa mantém uma separação entre desenvolvimento e supervisão. Essa escolha evita concentrar em um único sistema todas as decisões sobre funcionamento, avaliação e implantação, preparando a passagem para as duas frentes seguintes.

A segunda frente fica sob responsabilidade da Stanford University e tem a tarefa de criar o agente supervisor. Seu papel será acompanhar a segurança e a eficácia da inteligência artificial depois que ela estiver em uso clínico, funcionando como uma camada de verificação sobre os agentes que atendem diretamente os pacientes. Em termos simples, o supervisor será o mecanismo encarregado de observar se o sistema está cumprindo sua função e se os resultados permanecem adequados ao cuidado proposto. Essa separação é uma resposta ao risco de deixar uma IA avaliar sozinha as próprias decisões, e conecta o desenvolvimento tecnológico à necessidade de fiscalização permanente.

A terceira frente leva o projeto para dentro dos serviços de saúde. A Duke University foi escolhida para trabalhar na implementação, enquanto a Kaiser Permanente participa da mesma área voltada à adoção em sistemas de saúde. Essa etapa trata do ponto em que uma ferramenta deixa de ser um protótipo e precisa conversar com os processos reais de atendimento, os registros usados pelas instituições e as rotinas de profissionais e pacientes. O ADVOCATE, portanto, distribui as responsabilidades entre quem cria o agente, quem supervisiona sua atuação e quem precisa colocá-lo para funcionar em larga escala, uma divisão que explica a presença de sete organizações no programa.

O que muda no atendimento cardiovascular

O impacto esperado aparece primeiro na organização do cuidado. Uma frente do programa deverá conectar a inteligência artificial aos registros dos pacientes para apoiar decisões acompanhadas pela equipe clínica, enquanto outra poderá sugerir terapias físicas adequadas ao plano de atendimento. A proposta também prevê a modificação de prescrições sob supervisão, o que coloca a tecnologia perto de uma das áreas mais sensíveis do tratamento. Essas funções não foram apresentadas como substituição do profissional, mas como tarefas que a IA poderá executar dentro de uma estrutura controlada. Para o paciente, a promessa prática é reduzir o intervalo entre uma consulta e outra sem transformar cada ajuste em uma nova barreira de acesso.

O projeto também tenta unir informações que costumam ficar separadas durante o acompanhamento. Os registros digitais mostram o histórico documentado do tratamento, enquanto os dispositivos vestíveis podem fornecer dados coletados fora do ambiente clínico. Ao combinar essas duas fontes, o programa pretende acompanhar o paciente de maneira mais contínua e apoiar ajustes de cuidado ao longo do tempo. O foco em insuficiência cardíaca e em pessoas que sobreviveram a ataques cardíacos delimita a primeira aplicação, mas a ARPA-H descreve o objetivo final como o uso da tecnologia para ampliar o trabalho clínico em doenças crônicas. A aplicação prática depende, portanto, de conectar dados, supervisão e atendimento em uma única cadeia de cuidado.

A dimensão econômica também faz parte da justificativa apresentada para o programa. A ARPA-H estima que a redução de hospitalizações evitáveis e outras melhorias no acompanhamento possam gerar US$ 28 bilhões em economias anuais entre a população com insuficiência cardíaca. Esse número é uma estimativa associada ao objetivo do projeto, não um resultado já alcançado, e depende da autorização regulatória, da implantação nos sistemas de saúde e do funcionamento seguro dos agentes. A cifra ajuda a explicar por que o investimento inicial de dezenas de milhões de dólares foi ligado a uma estratégia de atendimento contínuo, mas não elimina a necessidade de comprovar que a ferramenta funciona fora do ambiente de pesquisa.

O próximo teste será regulatório e institucional

Antes de alcançar o atendimento cotidiano, o ADVOCATE terá de superar duas etapas que caminham juntas. A primeira é regulatória: os produtos voltados aos pacientes precisam buscar autorização da FDA dentro do prazo de 24 meses previsto pela iniciativa. A segunda é institucional: as soluções terão de ser implantadas em sistemas de saúde capazes de incorporar a tecnologia às suas rotinas. A ARPA-H trabalha com parceiros do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos para enfrentar os obstáculos regulatórios, enquanto as equipes de implementação foram escolhidas para lidar com a adoção em escala. O resultado dependerá da passagem coordenada entre desenvolvimento, supervisão e uso clínico.

Para quem acompanha a inteligência artificial na saúde, a caixa de ferramentas deixada pelo ADVOCATE é objetiva: observar quem controla os dados, quem supervisiona as decisões e qual órgão autoriza o produto antes de avaliar a promessa de automação. O programa combina US$ 33,7 milhões no primeiro ano, sete organizações e uma meta de autorização em 24 meses, mas cada número está ligado a uma etapa diferente do projeto. O desenvolvimento precisa produzir agentes úteis ao paciente, a supervisão precisa acompanhar sua segurança e os sistemas de saúde precisam conseguir incorporá-los ao atendimento. É nessa sequência, e não apenas na existência da IA, que a proposta será testada.