Após o período de testes realizado no ano letivo de 2025-2026, o Vietnã iniciou no ano letivo de 2026-2027 a implementação nacional da educação em inteligência artificial (IA) para estudantes do 1º ao 12º ano. Coordenada pelo Ministério da Educação e Treinamento, a política prevê um núcleo de 12 períodos por série a cada ano letivo, com foco em pensamento crítico, verificação de informações, ética digital e uso responsável das ferramentas. A proposta ganhou forma oficial com a Decisão nº 2422/QD-BGDĐT, publicada em agosto de 2026, e mostra que a escola vietnamita pretende preparar o aluno para compreender a tecnologia antes de depender dela. O detalhe mais relevante está justamente nessa escolha: a IA entra na sala de aula como objeto de estudo, ferramenta de apoio e tema de responsabilidade.

Da fase de testes ao currículo nacional

O caminho até a implementação em larga escala começou com um período de experimentação no ano letivo de 2025-2026. Depois de avaliar essa etapa, o Ministério da Educação e Treinamento confirmou a expansão para todas as escolas a partir de 2026-2027, transformando a educação em IA em uma política organizada nacionalmente. A oficialização ocorreu em 18 de agosto de 2026, por meio da Decisão nº 2422/QD-BGDĐT, que estabeleceu o currículo e os princípios de aplicação. A sequência revela uma preocupação conhecida por quem acompanha sistemas críticos: primeiro se testa o funcionamento, depois se amplia a operação, e só então se define uma regra comum para evitar que cada unidade siga um caminho completamente diferente.

Essa expansão alcança do 1º ao 12º ano e foi descrita como um programa voltado a cerca de 27 milhões de alunos em 50.000 instituições. O governo também definiu a meta de equipar 80% dos estudantes do ensino básico com conhecimentos de IA até 2030. A escala ajuda a entender a dimensão da iniciativa, mas o número mais revelador é o das 12 aulas ou períodos previstos para cada série por ano letivo, uma carga que permite criar um ponto de partida comum sem transformar a disciplina em um bloco separado de todo o restante da formação. A expansão nacional, portanto, combina alcance amplo com uma quantidade de conteúdo planejada para caber na rotina escolar.

O que cabe nas 12 aulas anuais

O currículo foi dividido entre um conteúdo central, destinado a garantir conhecimentos mínimos, e conteúdos ampliados, que cada escola poderá organizar de acordo com sua realidade. As instituições poderão escolher entre módulos dedicados, integração da IA a disciplinas já existentes ou atividades baseadas no interesse dos estudantes, como clubes e projetos. Essa flexibilidade permite que uma escola trabalhe o assunto dentro de uma aula específica, enquanto outra desenvolve atividades práticas conectadas a diferentes áreas do conhecimento. O modelo também deixa para cada instituição a responsabilidade de selecionar ferramentas adequadas e proteger os dados pessoais dos alunos, como detalha o framework vietnamita de educação em IA.

O conteúdo nacional se apoia em quatro pilares: pensamento centrado no ser humano, ética em IA, técnicas e aplicações de IA e design de sistemas de IA. Em termos práticos, isso organiza a aprendizagem em quatro perguntas: para quem a tecnologia serve, quais limites devem orientar seu uso, como as ferramentas funcionam e como sistemas desse tipo são planejados. O programa também prevê uma estrutura nacional de competências em IA, aguardada para junho de 2027. Essa estrutura deverá ajudar a definir o que os estudantes precisam saber em cada etapa, evitando que uma criança dos primeiros anos receba a mesma abordagem destinada a um aluno próximo de concluir o ensino básico.

Segurança antes da ferramenta

A política vietnamita coloca regras de proteção ao lado do conteúdo pedagógico. As escolas devem impedir o uso de ferramentas de IA não verificadas e garantir a segurança dos dados pessoais dos estudantes, uma exigência que muda a pergunta feita por professores e gestores. Antes de escolher uma aplicação por ser popular ou fácil de usar, a instituição precisa verificar se ela é adequada para a idade dos alunos e se trata corretamente as informações coletadas. A orientação também determina que a implementação não sobrecarregue o currículo geral nem crie novas disciplinas obrigatórias isoladas que exijam provas periódicas adicionais. A tecnologia entra na grade sem transformar cada novidade em uma nova obrigação administrativa.

O mesmo cuidado aparece na exigência de que os recursos mobilizados para a implementação sejam transparentes e não gerem custos para as famílias. A regra impede que a educação em IA dependa de ferramentas selecionadas sem critérios ou de pagamentos que criem diferenças entre estudantes. A diretriz nacional reforça que o ensino deve ser pedagógico, científico e adaptado à capacidade de cada série, mantendo a prioridade no uso seguro e ético. Para o aluno, isso significa que aprender a fazer uma ferramenta produzir um texto ou uma imagem não encerra a atividade: a escola também precisa trabalhar a conferência das informações e a responsabilidade envolvida na utilização do resultado.

Hanói transforma a política em três níveis

Hanói decidiu aplicar a educação em IA em 100% das instituições, mas organizou a expansão em três níveis para lidar com diferenças de infraestrutura. O primeiro nível corresponde à base obrigatória e inclui métodos visuais para escolas que não possuem laboratórios. O segundo amplia as atividades em 50 instituições com estrutura adequada, incluindo experiências relacionadas a robótica e projetos integrados. O terceiro concentra a especialização em escolas técnicas. A divisão evita que a falta de equipamentos impeça o primeiro contato com o tema, ao mesmo tempo em que cria espaço para práticas mais avançadas onde já existem condições para realizá-las.

Além da divisão por infraestrutura, Hanói estabeleceu restrições específicas para proteger os estudantes. A cidade proibiu o reconhecimento de identidade dos alunos e determinou que projetos escolares informem quando utilizaram IA. A declaração torna visível a participação da ferramenta no trabalho, permitindo separar o que foi produzido pelo estudante daquilo que foi gerado ou transformado por um sistema automatizado. Essa regra se conecta ao eixo de ética previsto no currículo nacional, porque o aluno aprende que usar uma tecnologia também envolve explicar como ela participou do resultado, e não somente apresentar o produto final.

O que muda para alunos e escolas

Para os estudantes, a mudança mais concreta será o contato progressivo com uma tecnologia que o governo deseja ensinar do primeiro ao último ano escolar. A formação começa pela relação entre pessoa e ferramenta, passa por ética, aplicações e técnicas, e chega ao desenho de sistemas de IA. O objetivo descrito pelas diretrizes é desenvolver pensamento crítico e verificação de informações, duas habilidades que impedem que uma resposta produzida por uma ferramenta seja aceita automaticamente como verdadeira. A escola deixa de tratar a IA como um assunto distante reservado a especialistas e passa a apresentá-la de forma ajustada à capacidade de cada turma.

Para as escolas, a tarefa envolve escolher a forma de ensinar, selecionar ferramentas e preservar os dados dos alunos dentro de uma carga anual definida. Uma unidade pode integrar o tema a disciplinas existentes; outra pode organizar clubes ou projetos; uma terceira pode oferecer módulos dedicados, desde que mantenha o conteúdo central. Essa autonomia vem acompanhada de limites claros, como a proibição de ferramentas não verificadas e a orientação para evitar avaliações adicionais que pressionem o currículo. O resultado é uma implementação que combina uma referência nacional com adaptações locais, algo especialmente visível no modelo de três níveis adotado por Hanói.

O próximo passo da educação em IA

A implementação nacional já começou no ano letivo de 2026-2027, mas a política ainda terá uma etapa de consolidação. A estrutura nacional de competências em IA é aguardada para junho de 2027, enquanto as escolas precisam colocar em prática o núcleo de 12 períodos e decidir como distribuir os conteúdos ampliados. O governo também estabeleceu a meta de alcançar 80% dos alunos do ensino básico com conhecimentos de IA até 2030. Esses prazos criam uma sequência objetiva: ampliar o acesso agora, organizar as competências no próximo marco e medir a cobertura ao longo dos anos seguintes.

A experiência do Vietnã oferece uma resposta concreta para uma dúvida que costuma acompanhar a entrada da IA na educação: por onde começar? O programa começa pela formação humana, passa pelo uso seguro e chega às técnicas, aplicações e sistemas. Para as instituições, a caixa de ferramentas está definida em três frentes: reservar os 12 períodos anuais, escolher uma abordagem compatível com sua estrutura e declarar as regras de proteção e autoria nos projetos. O próximo passo já tem data: durante 2026-2027, a política deixa os testes e passa à aplicação nacional, enquanto junho de 2027 marca a previsão para a nova referência de competências.