Três números ajudam a entender a nova fase da corrida pela infraestrutura de inteligência artificial: 38 gigawatts de capacidade de data centers planejados pela Microsoft até 2032, 121% de crescimento na receita de infraestrutura em nuvem da Oracle e mais US$ 700 milhões em custos adicionais de reestruturação previstos pela companhia. Em setembro de 2026, as duas empresas apresentaram movimentos diferentes, mas conectados pelo mesmo problema: transformar a demanda por IA em capacidade física de computação. Enquanto a Microsoft prepara uma expansão de longo prazo, a Oracle já mostra nos resultados financeiros o efeito imediato dessa disputa, com mais receita, novos contratos e pressão sobre o caixa.
Microsoft transforma a capacidade de data centers em plano de longo prazo
Essa expansão começa com uma meta que muda a escala da conversa sobre nuvem. A Microsoft pretende ampliar sua capacidade global de data centers de 12 GW para 38 GW até 2032, segundo reportagem da Bloomberg citada pela Reuters. A diferença equivale a 26 GW adicionais, enquanto apenas cerca de 2 GW da capacidade atual são direcionados a chips específicos para IA. No plano futuro, aproximadamente um terço da estrutura, ou cerca de 12,7 GW, deverá atender à infraestrutura de inteligência artificial. O gigawatt, ou GW, funciona aqui como uma medida de potência e ajuda a dimensionar a quantidade de energia associada à computação em nuvem, levando a discussão para além dos modelos e aplicativos que o usuário vê na tela. A reportagem sobre o plano da Microsoft mostra que a expansão será gradual, mas já está sendo planejada em escala nacional.
O desenho da Microsoft também inclui instalações próprias e espaços alugados, mas deixa de fora a capacidade alugada de provedores de neocloud, como a CoreWeave. Neocloud é o nome usado para empresas especializadas em oferecer computação sob demanda para cargas de trabalho específicas, especialmente aquelas que exigem muitos chips de IA. A expansão de 26 GW adicionais foi comparada à demanda de pico de eletricidade do estado de Nova York, uma referência que torna o tamanho do projeto mais compreensível para quem costuma associar IA apenas a software. A ponte entre esses dois mundos está nos data centers: cada serviço inteligente depende de servidores, energia e conectividade para processar dados, e a estratégia da Microsoft indica que a capacidade será distribuída entre ativos próprios e contratados, em vez de ficar concentrada em um único tipo de instalação.
Oracle já colhe receita da infraestrutura voltada à IA
Enquanto a Microsoft apresenta uma capacidade projetada para 2032, a Oracle exibiu no primeiro trimestre fiscal de 2027 os resultados financeiros de uma expansão que já está acontecendo. A receita total da companhia cresceu 30%, para US$ 19,3 bilhões, e a receita de nuvem chegou a US$ 11,6 bilhões, alta de 62%. Dentro dessa divisão, a infraestrutura em nuvem, conhecida como IaaS, avançou 121% e alcançou US$ 7,4 bilhões. IaaS é a camada da nuvem que fornece recursos de computação, armazenamento e rede para que outras empresas executem aplicações e serviços. Em uma conversa entre plataformas, essa camada funciona como a ponte física e digital que permite transformar modelos de IA em produtos acessíveis por sistemas corporativos, aplicativos e serviços conectados. Os dados completos estão no comunicado de resultados da Oracle.
A escala operacional acompanha o crescimento da receita. A Oracle adicionou 850 MW de capacidade de data center e entregou mais de 300 mil GPUs, processadores usados para executar cálculos em grande volume e atender cargas de trabalho de inteligência artificial. Ao mesmo tempo, as Obrigações de Desempenho Restantes, ou RPO, alcançaram o recorde de US$ 664 bilhões depois de novos contratos de IA. O RPO representa compromissos contratados que ainda serão reconhecidos como receita conforme a empresa entrega os serviços previstos, funcionando como uma espécie de agenda futura de negócios. A Oracle também declarou dividendos de US$ 0,50 por ação. A combinação entre capacidade física, GPUs e contratos mostra como a infraestrutura se conecta ao resultado financeiro, mas também prepara a discussão sobre quanto custa manter essa ponte funcionando.
O crescimento vem acompanhado de pressão financeira e operacional
A mesma corrida que impulsiona a receita da Oracle também amplia o custo de reorganizar a empresa. A companhia aumentou em cerca de US$ 700 milhões sua previsão de despesas de reestruturação, levando o total estimado para aproximadamente US$ 2,8 bilhões no plano do ano fiscal de 2026. Segundo a Reuters, o programa envolve cortes de empregos, rescisões de contratos e saídas relacionadas à adoção de IA. No trimestre, o fluxo de caixa livre da Oracle ficou negativo em US$ 5,4 bilhões. Fluxo de caixa livre é o dinheiro que sobra depois dos gastos operacionais e dos investimentos, portanto o número ajuda a medir quanto a expansão está exigindo antes que os novos contratos sejam convertidos em recebimentos. O avanço da infraestrutura, nesse caso, não acontece separado da reorganização das operações.
A pressão aparece também na forma como a Oracle precisa financiar sua expansão. Após os resultados, as ações da empresa subiram 7% no after-hours, período de negociação depois do fechamento regular do mercado, mas os investidores continuam acompanhando o endividamento e o ritmo de conversão dos contratos. A CFO Hilary Maxson afirmou que a Oracle espera transformar cerca de metade do RPO em vendas nos próximos 36 meses. A companhia também planeja levantar US$ 40 bilhões por meio de dívida e emissão de ações no ano fiscal corrente. A equação é direta: a empresa tem contratos futuros e crescimento de nuvem, porém precisa sustentar a construção de capacidade e os custos da reorganização até que parte desse volume vire venda realizada e caixa disponível.
O que a corrida por capacidade muda na prática
Quando os dois anúncios são colocados lado a lado, a disputa deixa de parecer uma simples competição por quem oferece o melhor serviço de IA. A Microsoft está planejando adicionar 26 GW de capacidade até 2032, com cerca de um terço da estrutura futura dedicado à IA, enquanto a Oracle já adicionou 850 MW e entregou mais de 300 mil GPUs no período informado. Esses números mostram duas pontes em construção: uma de longo prazo, baseada em instalações próprias e alugadas, e outra ligada a contratos que já elevaram o RPO da Oracle a US$ 664 bilhões. Para empresas que dependem de serviços de nuvem, a disponibilidade desses recursos define a capacidade de executar aplicações de IA em escala, ainda que os usuários finais não vejam os servidores que sustentam cada solicitação.
O próximo passo anunciado pela Microsoft tem prazo até 2032, enquanto a Oracle espera converter cerca de metade de seus compromissos futuros em vendas nos próximos 36 meses. Esses dois relógios devem ser acompanhados junto com os custos de reestruturação, o fluxo de caixa negativo e a necessidade planejada de levantar US$ 40 bilhões. A pergunta que fica para o setor é simples: quanto da promessa de crescimento será transformado em capacidade realmente utilizada e receita recebida? Por enquanto, os dados disponíveis apontam para uma expansão física acelerada, mas também para uma operação que exige capital, energia e disciplina financeira para conectar a demanda por IA aos resultados concretos.