Cerca de 90 administrações locais dos Estados Unidos cancelaram ou decidiram não renovar contratos com a Flock em agosto de 2026, segundo levantamento do grupo Secure Justice, sediado em Oakland. O número foi quatro vezes maior que o registrado em julho e levou a uma nova pergunta sobre o uso de leitores automáticos de placas por governos municipais. Desde 2021, 214 governos municipais já encerraram contratos com a empresa. Para entender o que está por trás dessa sequência de decisões, é preciso olhar para a tecnologia, para a circulação dos dados e para os problemas de privacidade que transformaram um contrato local em uma discussão sobre vigilância.
O salto de agosto começa com uma sigla
O levantamento trata de sistemas conhecidos pela sigla ALPR, abreviação em inglês para leitores automáticos de placas, equipamentos capazes de registrar placas de veículos para formar uma rede de informações usada por órgãos de segurança. A reportagem da Ars Technica descreve a apuração do Secure Justice como uma contagem de jurisdições que encerraram contratos com a Flock apenas em agosto. A questão deixa de ser apenas a presença de uma câmera em uma rua, porque a rede depende da interconexão entre dados de polícias e do setor privado, ligando decisões locais a uma estrutura mais ampla de acesso às informações.
Esse salto ganhou uma dimensão mais clara quando o ritmo de cancelamentos chegou a uma média de três localidades por dia nos 30 dias analisados. As rescisões ocorreram em diferentes regiões dos Estados Unidos, com exemplos como Lansing, em Michigan, e Pflugerville, no Texas. A distribuição geográfica indica que a discussão não ficou concentrada em uma única prefeitura ou em uma única região do país, mas avançou entre administrações que decidiram abandonar ou não renovar o serviço. A velocidade do movimento ajuda a explicar por que agosto passou a ser tratado como um ponto de virada na relação entre governos locais e a tecnologia de vigilância.
Uma sequência que começou antes
O número de agosto faz parte de uma história mais longa: o Secure Justice contabiliza 214 governos municipais que encerraram contratos com a Flock desde 2021. Esse total reúne decisões tomadas ao longo de vários anos e mostra que a saída de administrações locais não começou com os debates mais recentes sobre privacidade. A diferença é que o levantamento de agosto registrou uma concentração incomum de cancelamentos em um único mês, colocando sob o mesmo foco contratos assinados em localidades diferentes e em momentos distintos. A tecnologia chegou a cada cidade por meio de uma decisão administrativa própria, mas a reação passou a ser observada como um movimento nacional.
Antes desse avanço mais acelerado, ao menos 30 localidades haviam desativado câmeras ou cancelado contratos com a Flock desde o início de 2025, segundo a NPR. Entre os exemplos citados estão Cambridge, em Massachusetts, e Santa Cruz, na Califórnia. A maior parte dessa movimentação ocorreu no trimestre anterior a fevereiro de 2026, quando preocupações com privacidade e vigilância imigratória apareceram como os principais motivos para as decisões. Os recortes das fontes cobrem períodos diferentes, mas juntos mostram a passagem de casos isolados para uma sequência de decisões municipais acompanhada de perto por grupos de defesa e pela imprensa especializada.
Quando uma câmera vira uma rede
A resistência cresceu porque o funcionamento da Flock depende da interconexão entre dados de polícias e do setor privado. Em termos simples, a administração que instala os leitores em seu território passa a lidar com uma tecnologia cuja operação está ligada a uma rede de informações que ultrapassa os limites daquela rua ou daquele município. Essa característica torna a configuração de acesso tão relevante quanto a instalação física dos equipamentos. O contrato pode ser assinado por uma prefeitura, mas a forma como os dados são conectados e pesquisados passou a fazer parte da avaliação pública sobre o serviço.
Esse é o ponto que aproxima os cancelamentos de agosto das decisões tomadas anteriormente: as preocupações citadas pelas localidades envolvem privacidade e vigilância relacionada à imigração. A câmera produz a leitura automática da placa, mas o debate político se desloca para o que acontece depois, quando as informações entram em uma rede compartilhada entre instituições. Para as administrações municipais, a pergunta deixou de envolver apenas a utilidade operacional do leitor e passou a incluir quais órgãos conseguem consultar os dados, em que condições e com quais limites. O caso de Mountain View tornou essa dúvida concreta ao revelar que o acesso federal ocorreu por causa de uma configuração do sistema.
Mountain View transformou a preocupação em auditoria
A auditoria de Mountain View, na Califórnia, descobriu que agências federais acessaram dados locais entre agosto e novembro de 2024. Segundo a apuração publicada pelo Mercury News, o acesso ocorreu porque a Flock havia ativado uma configuração de busca nacional. A descoberta deu materialidade a uma preocupação que, em outras cidades, aparecia como receio sobre vigilância imigratória e privacidade. Em vez de discutir apenas a eficiência das câmeras, o município precisou examinar uma configuração que permitia procurar informações em escala nacional, ampliando o alcance percebido de um sistema instalado para atender a uma cidade específica.
Depois da auditoria, a cidade votou pela rescisão do contrato com a Flock Safety, decidiu remover as câmeras e rejeitou a adoção de uma tecnologia substituta. O conselho municipal também discutiu a recuperação de US$ 154.650 gastos na implementação. A sequência de medidas mostra como uma falha de controle ou uma configuração de busca pode deixar de ser um detalhe técnico e se transformar em uma decisão sobre continuidade do serviço, descarte dos equipamentos e uso do orçamento público. Esse episódio passou a funcionar como uma referência concreta para compreender a dimensão dos cancelamentos registrados em agosto.
A resposta da empresa e o próximo teste
Enquanto as administrações anunciam rescisões, a Flock Safety apresenta uma leitura diferente dos números. A empresa afirma que os novos contratos de parcerias com condados e municípios continuam superando as rescisões por uma margem de 10 para 1. A Flock também declarou que está trabalhando em melhorias nos padrões de privacidade, uma resposta direta às críticas que acompanham os cancelamentos. As duas informações precisam ser lidas juntas: a empresa diz que segue ampliando sua base de contratos, ao mesmo tempo em que reconhece a necessidade de alterar os padrões usados para proteger os dados.
Para quem acompanha a história da tecnologia, o próximo passo anunciado pela Flock é trabalhar nessas melhorias de privacidade, enquanto os governos locais continuam avaliando se devem cancelar ou não renovar seus acordos. A sequência de agosto oferece três pontos concretos para essa leitura: o ritmo de rescisões, o alcance da rede de dados e as configurações que definem quem pode pesquisar as informações. O caso de Mountain View mostra o custo de descobrir esses limites depois da instalação; a resposta da empresa indica que os padrões de privacidade serão o próximo teste para manter a confiança das administrações que ainda consideram contratar o serviço.