Uma cadeia de vulnerabilidades está sendo explorada ativamente contra instalações locais do Microsoft SharePoint em agosto de 2026, criando uma rota para que um invasor não autenticado execute código remotamente no servidor. O ataque combina a CVE-2026-55040, uma falha que permite contornar a autenticação, com a CVE-2026-63520, relacionada à criação insegura de tipos .NET no Business Connectivity Services. Na prática, a primeira vulnerabilidade abre caminho para a segunda, que transforma o acesso obtido em capacidade de execução remota de código, conhecida pela sigla RCE. A Microsoft já publicou correções, mas o risco continua para quem instalou apenas parte dos patches ou mantém o serviço exposto à internet.

Como as duas vulnerabilidades se encaixam

A lógica do ataque depende da combinação de duas etapas que, juntas, contornam a barreira de identidade e alcançam uma função capaz de executar instruções no servidor. A CVE-2026-55040 está associada a um bypass de autenticação no pipeline de validação de tokens JWT, ou seja, no processo usado para verificar informações que deveriam confirmar a identidade de quem acessa o sistema. A CVE-2026-63520, por sua vez, permite execução remota de código, o que significa que comandos podem ser enviados para processamento pelo servidor vulnerável. O resultado é uma cadeia de exploração que transforma uma falha de acesso em uma possibilidade concreta de controle operacional sobre a instalação.

Essa combinação ganha peso porque a segunda falha não depende de uma simples configuração exposta, mas de uma validação insuficiente dentro do Business Connectivity Services. A Rapid7 classificou a CVE-2026-63520 com pontuação CVSS 8.1 e atribuiu o problema à instanciação insegura de tipos .NET, processo em que o software cria objetos a partir de informações sobre seus tipos. A exploração bem-sucedida permite executar comandos do sistema operacional com os privilégios da conta de serviço do SharePoint, que é a identidade usada pelo serviço para funcionar no servidor. A análise técnica da Rapid7 sobre a falha ajuda a traduzir por que a validação desses tipos passou a ser o centro da correção.

Quem está exposto e por que a internet importa

O problema afeta versões locais do SharePoint, conhecidas como instalações on-premises, nas edições Subscription Edition, SharePoint 2019 e SharePoint 2016. O SharePoint Online não é afetado pela cadeia descrita nas análises de segurança, portanto a distinção entre o serviço hospedado pela Microsoft e os servidores mantidos pela própria organização é o primeiro filtro para avaliar o risco. A Indusface estima que aproximadamente 8.500 servidores SharePoint continuam acessíveis pela internet pública, uma condição que aumenta a exposição de instâncias ainda não corrigidas. Para o administrador, o ponto prático é identificar se a instalação está dentro dessas versões locais e se pode ser alcançada externamente, antes de presumir que uma atualização parcial resolveu o problema.

A exposição pública torna a velocidade da correção ainda mais relevante porque o atacante não precisa começar com credenciais válidas quando consegue combinar as duas vulnerabilidades. O acesso à internet não prova, por si só, que um servidor foi comprometido, mas amplia a superfície que pode ser sondada por tentativas automatizadas. As fontes também indicam que organizações que instalaram somente os patches de julho de 2026 continuam vulneráveis à cadeia completa de RCE, enquanto o conjunto de correções disponibilizado em agosto foi desenhado para tratar o encadeamento. Por isso, conferir apenas se houve uma atualização recente não basta; é preciso confirmar se o pacote correspondente ao ciclo de agosto foi aplicado.

Os ataques já deixaram sinais observáveis

Os primeiros sinais descritos publicamente vieram de honeypots da Defused, sistemas preparados para observar tentativas de intrusão sem expor uma operação real. Pesquisadores relataram que atacantes usaram a combinação CVE-2026-55040 e CVE-2026-63520 para fazer enumeração de administradores, isto é, procurar informações sobre contas com privilégios elevados, além de sondar o Business Data Catalog. Essa atividade não aparece como uma ameaça hipotética ou restrita a um laboratório de exploração, pois os sensores registraram requisições associadas à cadeia em andamento. O fato de provas de conceito, conhecidas como PoC, terem sido publicadas por pesquisadores da Rapid7 e da VulnCheck em agosto acrescenta uma referência técnica que facilita a reprodução do comportamento por outros agentes.

A confirmação institucional reforça a urgência da atualização. Em 18 de agosto de 2026, a CISA adicionou a CVE-2026-55040 ao catálogo KEV, sigla em inglês para o inventário de vulnerabilidades conhecidas por serem exploradas. A inclusão se refere à exploração ativa da falha de bypass de autenticação, enquanto os honeypots da Defused detectaram sondagens relacionadas à cadeia completa que também envolve a CVE-2026-63520. Essa diferença é relevante para a leitura do risco: uma falha já observada em ataques pode servir como ponto de entrada, mas o impacto mais amplo depende do encadeamento com a execução remota de código. A combinação entre registro da CISA e observação dos honeypots reduz o espaço para tratar o alerta como uma possibilidade distante.

Como desbugar a instalação do SharePoint

Para interromper a cadeia, a orientação central das fontes é aplicar as atualizações de julho e agosto de 2026, com atenção para o pacote completo do ciclo de agosto. A Microsoft publicou atualizações em 11 de agosto de 2026 para mitigar a CVE-2026-63520, mas a Beazley Security alerta que a instalação isolada dos patches de julho não protege contra o encadeamento que leva à RCE. Entre as correções específicas citadas estão as KB5002893, KB5002896 e KB5002905, disponibilizadas no ciclo de agosto. A ação prática, portanto, é comparar a versão instalada e os KBs aplicados com a lista correspondente à edição local do SharePoint, em vez de considerar qualquer atualização recente como suficiente.

A correção também altera a forma como o Business Connectivity Services restringe os tipos que podem ser executados. A Microsoft introduziu a lista de permissões BCSAllowedTypeNames, criada para limitar os tipos .NET autorizados durante o processamento. Essa mudança ataca diretamente a condição descrita pela VulnCheck: a falta de validação de tipos que permite chegar à execução de comandos do sistema operacional com os privilégios da conta de serviço do SharePoint. Para administradores de Subscription Edition, 2019 e 2016, a prioridade é garantir que a atualização de agosto esteja instalada por inteiro e que o ambiente não tenha parado no conjunto de julho. A orientação técnica da Beazley Security reúne as versões e os identificadores de correção mencionados no alerta.

O próximo passo para os administradores

A decisão imediata é separar três situações: SharePoint Online, que não aparece como afetado; instalações locais nas versões citadas; e servidores locais que já receberam apenas os patches de julho. Nos dois últimos casos, as fontes apontam para a aplicação das atualizações de agosto, pois somente o pacote completo trata o risco da cadeia de execução remota. A tarefa não exige interpretar a ameaça como um ataque de ficção científica: basta verificar a edição instalada, conferir os KBs correspondentes e concluir o ciclo de atualização indicado para o ambiente. Enquanto houver uma instalação local exposta e incompletamente corrigida, a combinação entre bypass de autenticação e RCE continua sendo o ponto que precisa ser desbugado.

A caixa de ferramentas fica, portanto, bem definida: identificar se o servidor é local, confirmar se ele pertence à Subscription Edition, 2019 ou 2016, verificar se a atualização de agosto foi aplicada e corrigir qualquer ambiente que tenha recebido somente os patches de julho. O alerta ganhou peso porque a CISA registrou exploração ativa da CVE-2026-55040 e porque a Defused observou sondagens usando a cadeia em honeypots. O próximo passo não é aguardar uma nova confirmação de ataque, mas concluir a atualização indicada pela Microsoft e retirar da lista de expostos os servidores que ainda não receberam o pacote completo.