Se a Meta achou que US$ 2 bilhões bastavam para comprar a Manus, o governo chinês tratou de mostrar que há ativos que dinheiro não compra. A startup de inteligência artificial, que desenvolve agentes capazes de executar tarefas complexas na internet em vez de apenas gerar texto, está prestes a retomar operações independentes depois de uma reviravolta que começou com a aquisição bilionária anunciada em dezembro de 2025 e terminou com uma ordem explícita de Pequim para desfazer o negócio. Agora, em julho de 2026, a Tencent negocia para se tornar a maior acionista da companhia, em um movimento que devolve a startup à órbita do capital chinês sem entregar o controle total a um único investidor.
O negócio que nasceu com uma condição impossível
Para entender o desfecho, é preciso voltar ao momento em que a Meta anunciou a compra da Manus, no fim de 2025. A startup chamou atenção do mercado por criar agentes de IA que agem em vez de apenas conversar: sistemas que navegam por sites, preenchem formulários e executam fluxos de trabalho inteiros com autonomia. A aquisição, avaliada em mais de US$ 2 bilhões, foi tratada como um trunfo estratégico para integrar essa capacidade ao WhatsApp e a outras plataformas do grupo de Mark Zuckerberg. Havia, porém, uma condição que já na época soava como armadilha: a Meta precisaria cortar todos os laços da Manus com a China, país de origem da startup e de seus fundadores. Se a intenção era transformar uma empresa americana em dona de tecnologia crítica chinesa, a resposta de Pequim veio rápida, cirúrgica e em três atos.
O bloqueio em três atos
O primeiro ato aconteceu em março de 2026, quando o governo chinês impediu a saída dos fundadores da Manus do país — uma medida que, na prática, inviabilizava a transferência de conhecimento e de controle para a Meta. O movimento não foi isolado: em maio, Pequim ampliou as restrições de viagem para profissionais de IA em empresas privadas, exigindo aprovação prévia para qualquer deslocamento internacional, o que afetou diretamente o trânsito de talentos entre plataformas globais. A lógica por trás dessas medidas é simples: se o ativo estratégico é o talento e o código, então o controle de fronteiras é o mecanismo de proteção. O segundo ato veio em abril, com a ordem explícita para que a Meta desfizesse a aquisição. O terceiro ato foi a desmontagem operacional do negócio, que começou a se materializar em junho. Como reportamos à época, a decisão de segurar os fundadores foi a chave para travar a venda bilionária antes mesmo que ela fosse concluída.
A desmontagem do negócio
A separação começou a ganhar forma concreta em junho, quando a Meta iniciou a desintegração operacional da Manus, cortando sistemas internos e suspendendo o compartilhamento de dados entre as duas empresas. O processo, que documentamos na ocasião, foi acompanhado de perto pelos fundadores da startup, que já discutiam uma captação de US$ 1 bilhão para recomprar a companhia. O plano contava com a cooperação de investidores como a Benchmark, que recebeu valores como parte do processo de reversão, e da Tencent, que desde então passou a se movimentar nos bastidores. Em outras palavras: a Meta pode ter tido o dinheiro para comprar a startup, mas não teve o poder político para mantê-la — e a conta dessa reversão foi paga em espécie, com a devolução dos valores aos investidores.
A Tencent no centro do novo arranjo
Menos de um mês depois, a estratégia ganhou um contorno mais claro. A Tencent, uma das maiores empresas de tecnologia da China, está em conversas para adquirir a maior fatia da Manus em um acordo que pode ultrapassar US$ 2 bilhões — o mesmo patamar, aliás, do que a Meta pagou originalmente. A diferença é que, desta vez, a estrutura desenhada prevê participação minoritária, o que evita o controle único por um único acionista e, ao mesmo tempo, mantém a startup sob a supervisão do capital chinês. Os investidores originais ZhenFund e HSG participam do plano de recompra junto com a Tencent, o que sugere que a solução encontrada agrada tanto ao capital privado quanto às autoridades de Pequim. A Manus, que já transferiu suas operações para Singapura, segue desenvolvendo produtos com integrações em plataformas como Similarweb e Shopify, ou seja, a máquina não parou enquanto o imbróglio jurídico e político se desenrolava.
O que muda na prática
A volta da Manus à independência não significa que a startup ficará imune à geopolítica. Significa, isso sim, que o controle de tecnologias consideradas estratégicas pela China continuará sob supervisão de Pequim, ainda que com roupagem de mercado. Se a Meta aprendeu que há ativos que dinheiro não compra, o mercado de IA aprendeu que aquisições bilionárias podem ser revertidas por decreto — e que a due diligence mais importante, nesses casos, não é financeira, e sim política. Para quem acompanha o setor, a lição é direta: a próxima grande compra de uma startup de IA chinesa precisará, antes de tudo, de um aval de Pequim, e não apenas de um acordo de acionistas. O caso Manus fica como arquivo de referência para qualquer um que ainda acredite que um contrato de compra e venda vale mais do que a vontade de um Estado.