Quando falamos de inteligência artificial aplicada à indústria, muita gente ainda imagina pilotos isolados, projetos-piloto que ficam restritos a um departamento ou a uma tarefa específica. Mas e se a IA deixasse de ser um experimento para se tornar o sistema nervoso central de toda uma operação que vale bilhões de dólares? É exatamente essa a transformação que a ADNOC, a gigante de energia dos Emirados Árabes Unidos, está implementando, abandonando iniciativas pontuais para integrar a inteligência artificial em cada etapa de sua cadeia de valor, desde a exploração geológica até as decisões estratégicas na sala de diretoria.
A virada de chave: de pilotos isolados a capacidade corporativa
Para entender a magnitude dessa mudança, é preciso voltar um pouco no tempo. A ADNOC não começou ontem; a empresa lançou sua estratégia de IA e Tecnologia Digital (AIDT) em 2023 com um objetivo claro: se tornar a empresa de energia mais habilitada para IA do mundo. Antes disso, entre 2017 e 2019, ela investiu na construção de uma infraestrutura de dados robusta, um alicerce indispensável para qualquer projeto de IA que queira escalar. A transição de fase é a parte mais interessante: sair de projetos que geram valor em silos para uma orquestração onde a IA não é um complemento, mas o próprio modo de operar. A empresa declarou em comunicado recente que está "reconstruindo a ADNOC do zero, processo por processo, para se tornar a empresa de energia mais habilitada para IA do mundo", o que indica uma revisão completa dos workflows operacionais.
ENERGYai: a plataforma de IA que entende de petróleo e gás
O coração dessa integração é o ENERGYai, uma plataforma de IA agêntica desenvolvida pela AIQ — uma joint venture entre a ADNOC e a G42 — em colaboração com a Microsoft. O que diferencia essa plataforma é que ela combina modelos de linguagem de grande porte (LLMs) com agentes de IA especializados, treinados especificamente nos fluxos de trabalho e nos dados proprietários de operações de petróleo e gás acumulados ao longo de 70 anos. Em termos práticos, isso significa que o sistema não apenas responde perguntas; ele executa tarefas complexas de forma autônoma, como a interpretação sísmica, a modelagem geológica e de reservatórios, a previsão de emissões e o monitoramento de processos em tempo real. Durante testes realizados com apenas 15% dos dados da ADNOC, o agente sísmico conseguiu um aumento de 10 vezes na velocidade de interpretação sísmica e um ganho de 70% na precisão. O impacto no tempo de trabalho é brutal: processos que antes levavam meses agora podem ser concluídos em dias.
Interoperabilidade em ação: a IA ligando cada ponta da operação
Imaginar a IA apenas no escritório de engenharia seria subestimar seu potencial. A verdadeira mágica acontece quando ela atua como um tradutor e um orquestrador entre diferentes pontos da operação, criando uma rede de interoperabilidade que gera valor em cascata. Um exemplo concreto é o Panorama Digital Command Center, que agrega dados em tempo real das 14 subsidiárias e joint ventures da ADNOC. Utilizando IA, big data e modelos preditivos, essa central já produziu um valor cumulativo de negócios superior a US$ 1 bilhão desde sua implantação em 2018. Outro exemplo é a parceria recente com a SLB, resultando na implantação do Centro de Operações em Tempo Real (RTOC) habilitado por IA em toda a frota de mais de 120 plataformas de perfuração da ADNOC. Esse sistema consolida os dados de perfuração ao vivo em um único ambiente, permitindo que os engenheiros monitorem operações, identifiquem riscos mais cedo e tomem decisões mais rápidas. O resultado prático? A plataforma reduz o esforço de engenharia em 30% a 40%, permitindo que uma mesma equipe supervise de duas a três vezes mais plataformas de perfuração do que antes.
Manutenção preditiva e segurança: prevenindo falhas antes que aconteçam
Além da otimização da perfuração, a integração da IA na manutenção de ativos representou uma mudança de paradigma na confiabilidade operacional. A plataforma Neuron 5 atua como um médico digital para os equipamentos industriais, analisando continuamente dados de milhares de ativos operacionais para identificar problemas potenciais antes que eles se transformem em falhas reais. Essa capacidade de antecipação resultou em uma redução de 50% nos desligamentos não planejados, estendendo os intervalos de manutenção e melhorando drasticamente a confiabilidade das operações. No campo da segurança, a ferramenta SMARTi utiliza visão computacional — que nada mais é do que IA treinada para "enxergar" e interpretar imagens e vídeos — para monitorar ambientes de trabalho e reduzir incidentes de segurança em 30%. Esses exemplos mostram como a IA deixa de ser uma ferramenta de análise retrospectiva para se tornar um sistema de prevenção e otimização em tempo real.
Transformando a força de trabalho: 40 mil pessoas treinadas
De nada adianta a tecnologia mais avançada se as pessoas não souberem como usá-la. A ADNOC entendeu isso e, em novembro de 2023, se tornou a primeira empresa de energia a implementar o Microsoft Copilot de forma enterprise-wide. Desde então, mais de 40 mil funcionários completaram treinamentos em IA, com uma taxa de utilização superior a 90%. O ganho de produtividade acumulado já ultrapassa 70 mil horas por mês. Para acelerar o ciclo de inovação interna, a empresa também criou o AI Lab, que reduziu o tempo entre a concepção de uma prova de conceito e sua implantação real por um fator de três, além de um AI Marketplace onde os próprios funcionários podem criar e compartilhar agentes de IA. A aposta não é apenas em contratar especialistas, mas em capacitar a base de colaboradores para que a IA permeie cada nível da organização, desde a sala de controle até a diretoria.
Investimentos milionários e a visão de longo prazo
A transição para uma operação totalmente habilitada por IA exige investimentos massivos. Um exemplo é o Programa de Digitalização de Poços, que conta com um contrato de US$ 920 milhões para estender o monitoramento remoto por IA para mais de 2 mil poços até 2027. Somente o contrato de implantação do ENERGYai no segmento upstream (exploração e produção) com a SLB é de US$ 340 milhões. Em novembro de 2025, a ADNOC firmou uma aliança estratégica com a Masdar, a XRG e a Microsoft para acelerar ainda mais a implantação de IA em sua cadeia de valor e, ao mesmo tempo, desenvolver soluções energéticas para o crescimento dos data centers globais da Microsoft. O reconhecimento externo veio em 2025, quando o ENERGYai conquistou o Gartner Eye on Innovation Award para o setor de Petróleo e Gás na região EMEA. O próximo passo é a implantação escalável da versão final do ENERGYai, que teve seu rollout iniciado no quarto trimestre de 2025.
A jornada da ADNOC oferece um roteiro tangível para qualquer líder de tecnologia ou operações que queira entender o que significa, de fato, integrar a IA em larga escala. Não se trata apenas de adquirir software; é uma revisão completa da infraestrutura de dados, do modelo de capacitação de pessoas e dos processos operacionais mais críticos. O primeiro passo prático para qualquer organização, independentemente do porte, é abandonar a mentalidade de "projeto-piloto" isolado e começar a mapear como a IA pode atuar como um agente de interoperabilidade, conectando sistemas e decisões que hoje funcionam de forma desconectada. A verdadeira inovação não está no algoritmo em si, mas na capacidade de construir pontes digitais que transformam dados brutos em ação coordenada e eficiente.