A discussão sobre o que define uma empresa verdadeiramente inovadora muitas vezes se perde em discursos genéricos, mas uma pesquisa de longa data decidiu colocar ordem na casa usando dados concretos e verificação cruzada de informações. Na noite do dia 3 de agosto de 2026, o hotel Unique, em São Paulo, recebeu a cerimônia de premiação da 12ª edição do Prêmio Valor Inovação Brasil, uma iniciativa que não apenas entrega troféus, mas realiza um raio-X detalhado do desenvolvimento tecnológico das maiores corporações do país. A grande vencedora deste ano foi a CNH, que assumiu a liderança absoluta do ranking geral, deixando para trás gigantes de setores tradicionais e de tecnologia.
A metodologia forense por trás da escolha
Antes de entender o que cada empresa fez para subir ao pódio, é necessário desmontar a metodologia que validou essas escolhas, pois ela funciona como um filtro de narrativas corporativas. A pesquisa, conduzida em parceria pela Strategy& (braço de consultoria da PwC), Valor Econômico e Época Negócios, analisou cerca de 540 cases apresentados por 270 empresas, resultando em um ranking das 150 mais inovadoras do Brasil. A avaliação não se baseia em percepção de mercado, mas em quatro dimensões concretas: planejamento no processo de inovação (estratégia e cultura), execução e práticas (governança e recursos), resultados gerais e específicos, e reconhecimento externo, que inclui pedidos de patentes. Para evitar vieses internos, a avaliação contou com um júri independente formado por especialistas como Amanda Graciano (Trama), Dora Kaufman (PUC-SP), Hugo Tadeu (FDC) e Luiz Serafim (Inspira Move/FGV), que complementaram a análise técnica da consultoria.
Se a pergunta é "quem pode participar?", as barreiras de entrada já eliminam empresas pequenas ou muito dependentes de subsídios governamentais. Para uma organização figurar neste ranking, ela precisa obrigatoriamente ter desenvolvido suas inovações no Brasil e possuir uma receita líquida mínima de R$ 500 milhões em um dos dois últimos anos fiscais. Além disso, o regulamento exige que a empresa tenha pelo menos 5% de participação privada no capital ou, no caso de empresas públicas, comprove governança independente, atuação em mercado competitivo e independência financeira sem aportes governamentais nos últimos três anos. Esses critérios rigorosos garantem que o ranking represente o desempenho de players de peso real na economia, validando que, entre as 20 mais inovadoras de 2026, a parcela que investe mais de 5% da receita líquida em inovação saltou impressionantes 45% para 80%.
CNH: A liderança apoiada em cobots e automação
A CNH, conglomerado que detém marcas como Case IH e New Holland, não venceu apenas por volume de investimento, mas pela forma como integrou tecnologia de ponta em processos industriais antigos. Sob a gestão de Rafael Miotto, presidente da CNH na América Latina, a empresa utiliza cobots (robôs colaborativos projetados para trabalhar ao lado de humanos sem necessidade de gaiolas de segurança) na solda, além de aplicar modelos preditivos com inteligência artificial no processo de S&OP (Sales and Operations Planning), uma técnica de gestão que alinha previsão de vendas com o planejamento de produção, reduzindo drasticamente a necessidade de estoque. Outro ponto decisivo foi o uso de IA no processamento de documentos de crédito, o que resultou em uma redução de 90% nos custos operacionais dessa etapa. O investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) globalmente atingiu R$ 740 milhões, sustentando uma base instalada de mais de 1.600 patentes no Brasil e mais de 11.000 no exterior, com uma equipe de 446 funcionários dedicados exclusivamente a inovação.
Einstein: O hospital que se tornou uma gigante de dados
A segunda colocação foi ocupada pelo Hospital Israelita Albert Einstein, que provou que a inovação em saúde não se limita a novas máquinas de exame, mas envolve governança de dados e terapias experimentais. O hospital tem quase 400 profissionais dedicados exclusivamente à inovação, espalhados em três centros localizados em São Paulo, Goiânia e Manaus, investindo cerca de 5% de suas receitas na área. O diferencial competitivo do Einstein reside na sua credenciamento como Unidade Embrapii em saúde digital, o que o habilitou a desenvolver uma rede robusta de algoritmos: atualmente, são 130 algoritmos de inteligência aumentada operando em 14 áreas assistenciais distintas. Em parceria com a Fundação Gates e o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), o hospital lançou a plataforma Mais, que já consolida dados de saúde de mais de 5.500 municípios brasileiros.
No campo da biotecnologia, o Einstein avançou na terapia CAR-T Cell, um tratamento oncológico complexo onde as células de defesa do paciente são geneticamente modificadas em laboratório para atacar o câncer. Até o momento, foram realizadas 46 infusões e a pesquisa gerou quatro pedidos de patentes. Os resultados preliminares, apresentados após um ensaio clínico aprovado pela Anvisa em 2022 e financiado pelo SUS, apontaram uma taxa de 81% de resposta e 72% de remissão completa em 11 pacientes analisados, consolidando a instituição como referência científica global.
Claro: Infraestrutura e nuvem híbrida
Na terceira posição, a Claro se destacou pela estratégia de transformar sua infraestrutura de telecomunicações em uma plataforma de serviços digitais abertos, algo que vai muito além da venda de planos de celular. Sob o comando do CEO Rodrigo Marques, a operadora estruturou o BeON, um hub de inovação aberta que atua como ponte entre a corporação, startups e universidades. A empresa também criou hubs autônomos em 11 verticais de mercado, incluindo IoT (Internet das Coisas), e-Commerce e serviços financeiros como o Claro pay. Em 2025, a operadora realizou um investimento massivo de R$ 1 bilhão na plataforma Claro cloud, consolidando parcerias estratégicas com a Nvidia (tornando-se a primeira Nvidia Cloud Partner na América Latina) e a AWS para oferecer soluções de nuvem híbrida usando AWS Outposts.
A presença no ranking é sustentada também pelo volume de dados que a companhia movimenta. Com 89,5 milhões de clientes em telefonia móvel e uma receita de R$ 51,8 bilhões em 2025, a Claro consolidou parcerias que ultrapassam a marca de 100 acordos focados em inovação. Um exemplo prático é a parceria de cinco anos, orçada em R$ 40 milhões, com a Fapesp e a USP para criar um Centro de P&D focado em Inteligência Artificial e 5G, que conta com mais de 100 pesquisadores. A empresa também fez história no mercado financeiro digital ao lançar a NuCel, uma operadora virtual (MVNO) em parceria com o Nubank, que já alcançou a marca de 1 milhão de clientes.
Bosch: Do campo à fábrica com IA
Completando o grupo de elite das quatro primeiras, a Robert Bosch trouxe a prova de que a industria automotiva e agrícola não ficou parada no tempo. A empresa, representada por Gastón Diaz Perez, presidente e CEO para a América Latina, assumiu a 4ª posição com uma estratégia centrada em agricultura inteligente e na transição energética de motores diesel. Em seus centros de pesquisa no Brasil — que somam três unidades em Campinas, Curitiba e Sorocaba —, a Bosch emprega 1.500 profissionais em P&D, o que representa mais de 10% dos seus 11 mil colaboradores na região. O Centro de Competência Global em Campinas, por exemplo, desenvolveu sistemas de pulverização inteligente que utilizam câmeras e sensores para aplicar defensivos agrícolas, reduzindo o consumo de herbicidas em até 70%.
No setor de mobilidade, a Bosch adaptou sua tecnologia diesel-etanol, que permite substituir de 35% a 40% do diesel por etanol em motores pesados — podendo atingir picos de 60% em determinados ciclos —, além de oferecer adaptações flex (capazes de operar com múltiplos tipos de combustível) para veículos híbridos. A aposta em talentos também foi um fator de desempate: a Digital Talent Academy, programa que oferece curso técnico para jovens de 16 a 19 anos, recebeu mais de 20 mil candidatos na última edição para apenas 400 vagas anuais. De acordo com as fontes da pesquisa, essa iniciativa interna ajudou a transformar a Bosch Brasil no terceiro maior centro de digitalização do grupo global, perdendo apenas para as operações na Índia e na Polônia, e gerou uma plataforma de IA para reengenharia de processos que elevou o grau de automação interna de 10% para 90%, sendo agora adotada globalmente pela matriz.