Na quinta-feira, 30 de julho de 2026, o Google decidiu que o Google Earth precisava de uma camada extra de realidade — não a realidade geográfica que já conhecemos, mas uma realidade fabricada por inteligência artificial, onde um terreno baldio em Tóquio poderia se transformar em um centro comercial movimentado com um simples comando de texto. A proposta, anunciada pelo gerente de produto Bryan Horowitz no blog oficial da empresa, soava promissora: usar a vasta base de imagens de satélite, aéreas e 3D da plataforma para permitir que usuários gerassem imagens personalizadas. A ferramenta, no entanto, durou menos de um dia. Na sexta-feira, 31 de julho, após uma onda de críticas de jornalistas e especialistas em inteligência de código aberto (OSINT) que demonstraram como o recurso poderia ser usado para fabricar cenas de destruição, protestos e desastres, o Google anunciou o rollback — um termo da indústria que significa desativar uma atualização e reverter o sistema ao estado anterior — da função. O ciclo completo, do lançamento ao recuo, durou aproximadamente 24 horas.

Como funcionava a ferramenta de geração de imagens no Google Earth?

A nova funcionalidade, impulsionada pelo modelo de IA Nano Banana 2, permitia que qualquer assinante do Google Earth na versão web escrevesse um prompt — que é uma instrução em linguagem natural, como "crie uma imagem de uma casa de campo à beira de um lago" — e a inteligência artificial geraria uma imagem fotorrealista que seria então sobreposta à fotografia de satélite ou aérea real da localização escolhida pelo usuário. Segundo a descrição oficial, os usos planejados eram criativos e educativos: visualizar como ficaria uma ruína antiga no auge de sua glória, transformar o campus do Google em uma utopia futurista ou criar infográficos sobre pontos turísticos como a Estátua da Liberdade. A ferramenta estava disponível globalmente, mas com restrições: era acessível apenas na versão para desktop do Google Earth, não no aplicativo móvel, e limitada a assinantes que podiam criar apenas algumas imagens por dia. Além disso, o Google enfatizou que todas as imagens geradas levariam uma marca d'água indicando que foram criadas por IA, incluindo uma marca d'água digital invisível chamada SynthID, uma tecnologia desenvolvida pela própria empresa para rastrear a origem do conteúdo gerado por seus modelos.

O experimento de 24 horas: como a desinformação tomou conta do recurso

A realidade, porém, desmoronou a promessa em menos de um dia. Assim que a função ficou disponível, profissionais e curiosos começaram a usá-la para criar imagens que simulavam cenários de crise com um realismo perturbador. O jornalista Joseph Cox, do 404 Media, rapidamente gerou exemplos que incluíam uma cratera de explosão em Los Angeles, protestos do lado de fora do campus do Google em Mountain View, uma cidade afetada por bombardeios, inundações ao redor do Capitólio dos Estados Unidos e uma base militar americana no Bahrein danificada. Enquanto isso, o investigador Henk van Ess, da plataforma Digital Digging, usou a ferramenta para criar imagens igualmente convincentes de refugiados perto da fronteira com o México, uma usina nuclear no Irã e um acidente fatal em uma rua de Amsterdã. O jornalista Shayan Sardarizadeh, da BBC, respondeu com um post sarcástico no X: "Não há como essa nova funcionalidade de geração de imagens por IA no Google Earth, uma das fontes mais confiáveis de evidência visual para jornalistas e pesquisadores, ser possivelmente usada para disseminar desinformação online. Absolutamente nenhuma razão para preocupação aqui".

O argumento de defesa do Google e a fragilidade das proteções

Em sua declaração oficial, publicada no X pelo perfil @NewsFromGoogle, a empresa reconheceu o problema, mas tentou minimizá-lo: "Sabemos que as pessoas confiam unicamente no Google Earth para uma visão confiável do mundo. Vimos profissionais geoespaciais usando essa funcionalidade para uma variedade de propósitos úteis; no entanto, também vimos pessoas compartilhando capturas de tela de imagens geradas que parecem violar nossas políticas. Assim, estamos revertendo essa funcionalidade no Google Earth enquanto trabalhamos na implementação de proteções mais fortes". O Google também reforçou que as imagens geradas "não apareciam na experiência principal do Google Earth para outras pessoas verem" e que estavam "marcadas como geradas por IA". O problema lógico com esse argumento, no entanto, é claro: uma captura de tela de uma imagem fotorrealista de uma explosão em uma grande cidade, mesmo que tenha uma marca d'água digital invisível (que o olho humano não vê) ou uma marca d'água visível (que pode ser cortada com facilidade), circula nas redes sociais com a mesma velocidade e credibilidade de uma foto real, especialmente quando compartilhada sem contexto. Os guardrails (proteções) que o Google prometeu implementar não estavam presentes no lançamento inicial.

O risco concreto para o ecossistema de verificação de informações

A preocupação vai além de fotos enganosas nas redes sociais. O Google Earth é uma ferramenta amplamente utilizada por analistas de OSINT (Inteligência de Código Aberto, a prática de coletar e analisar informações de fontes públicas) para monitorar conflitos, desastres naturais e movimentos geopolíticos. A plataforma é uma referência de confiança para jornalistas, pesquisadores humanitários e até agências governamentais. Nathaniel Raymond, diretor do Laboratório de Pesquisa Humanitária de Yale, alertou para o risco de que ferramentas como essa corroam a baseline — a linha de base de confiança — das imagens de satélite. Se qualquer pessoa pode fabricar uma imagem convincente de um evento que nunca aconteceu usando a própria ferramenta de referência, como os analistas podem confiar no que veem? Aravind Ravichandran, da consultoria espacial TerraWatch Space, reforçou essa preocupação, destacando os perigos para a confiança nas imagens aéreas.

Um padrão preocupante: a pressa do Google em lançar funcionalidades de IA

O episódio do Google Earth não é um caso isolado. Ele se insere em um padrão mais amplo de decisões apressadas do Google no lançamento de produtos de IA generativa. Em dezembro de 2025, a empresa lançou no Gemini uma ferramenta para detectar vídeos criados por IA, utilizando sua tecnologia SynthID — a mesma marca d'água digital usada nas imagens do Google Earth. A iniciativa, que buscava "desbugar" a desinformação visual, mostrou que o Google reconhece o problema da IA fabricando conteúdo falso, mas também que as soluções técnicas, como marcas d'água, têm limitações práticas quando o conteúdo sai da plataforma. Mais recentemente, em julho de 2026, a empresa enfrentou pressão regulatória no Reino Unido, onde a Autoridade de Concorrência e Mercados (CMA) determinou que sites pudessem bloquear o uso de seu conteúdo em resumos gerados por IA do Google — uma decisão que revela a tensão crescente entre o avanço da IA e os direitos de quem produz informação.

O que esse episódio revela sobre a governança de IA no Google

A velocidade com que o Google recuou — menos de 24 horas — sugere que a empresa já antecipava o risco, mas optou por lançar a funcionalidade de qualquer forma, talvez confiando demais nas barreiras técnicas (como o SynthID e as restrições de acesso) e subestimando a criatividade dos usuários em contorná-las. A decisão de limitar o acesso a assinantes e criar apenas "algumas imagens por dia" parece uma tentativa de mitigar o dano, mas não impediu que as imagens fabricadas circulassem amplamente nas redes sociais. O comunicado do Google, ao mencionar que viu "profissionais geoespaciais usando a funcionalidade para propósitos úteis", tenta ancorar a narrativa em um benefício legítimo, mas o balanço final foi negativo: a reputação do Google Earth como fonte confiável de informação visual foi temporariamente comprometida. O caso também levanta uma pergunta incômoda: por que uma empresa com os recursos do Google não realizou testes mais rigorosos com especialistas em desinformação antes de lançar a ferramenta para milhões de usuários?