Em julho de 2026, durante a Cúpula Global AI for Good em Genebra, a ITU anunciou o lançamento do AI for Good Lab, uma iniciativa que busca responder a uma pergunta premente: como garantir que os benefícios da inteligência artificial alcancem todos os cantos do mundo, e não apenas os centros de poder tecnológico? Esse laboratório, parte da Iniciativa de Impacto AI for Good das Nações Unidas, surge como uma ponte entre a ambição global e a capacidade local, prometendo ajudar economias em desenvolvimento a construir as fundações necessárias para uma IA responsável e escalável. Ao invés de apenas replicar modelos de países ricos, o foco está em soluções adaptadas ao contexto local, desde datasets próprios até modelos ajustados às realidades regionais.

Os Três Pilares que Conectam Política, Habilidades e Infraestrutura

O AI for Good Lab estrutura seu trabalho em torno de três áreas interconectadas que formam a base para qualquer nação que deseje integrar a IA de forma sustentável. A primeira envolve avaliações de prontidão nacional para IA, orientações políticas e programas de capacitação que preparam governos para tomar decisões informadas sobre regulamentação e uso da tecnologia. A segunda foca no desenvolvimento de habilidades, incluindo programas como a Fábrica de Inovação AI for Good, que desde 2020 já engajou mais de duzentas startups de mais de oitenta e oito países, oferecendo aceleração, hackathons e desafios de aprendizado de máquina. Já o terceiro pilar diz respeito à infraestrutura pública de IA, fornecendo acesso a datasets abertos, recursos de computação, modelos reutilizáveis e ferramentas de código aberto para setores prioritários como saúde, agricultura, educação e mobilidade, tudo alinhado com padrões da ITU. Essa abordagem integrada evita projetos isolados e busca criar redes nacionais capazes de sustentar inovações a longo prazo.

Imagine, por um momento, o que significa para um país ter não apenas acesso a ferramentas avançadas de IA, mas também a capacidade de adaptá-las às suas próprias necessidades culturais e econômicas. Será que a IA, em sua essência, pode se tornar uma ferramenta de empoderamento coletivo, ou correrá o risco de aprofundar divisões existentes entre nações? O laboratório trabalha com governos nacionais e escritórios regionais da ITU para estabelecer hubs locais e regionais, garantindo que o conhecimento não fique centralizado em Genebra ou em grandes corporações. Dr. Ebtesam Almazrouei, presidente da Iniciativa de Impacto AI for Good, observa que a inteligência artificial está entrando em sua década de implementação, onde o questionamento não é mais se ela pode transformar a sociedade, mas como isso pode ser feito de maneira responsável, inclusiva e em escala.

Os Países Piloto e a Parceria com a União Africana de Telecomunicações

Para dar vida a essa visão, o AI for Good Lab constrói sobre as atividades do AI for Good Sandbox em dez países selecionados, que servem como laboratórios vivos para testar e refinar abordagens locais. Entre esses, destacam-se nações africanas como Camarões e Moçambique. Parcerias se estendem à Índia na Ásia e ao Peru na América do Sul. Nepal e Tanzânia fazem parte do grupo. Os Emirados Árabes Unidos e Uzbequistão completam, assim como Zâmbia e Zimbábue, trabalhando ao lado da União Africana de Telecomunicações como parceiro regional. Essa seleção diversificada permite que lições de um continente informem estratégias em outro, promovendo um diálogo verdadeiramente global.

Ao conectar esses países através de sandboxes que oferecem ambientes seguros para experimentação, o laboratório visa mover as nações além de projetos piloto isolados em direção a redes nacionais sustentáveis. Os dados locais, adaptados ao contexto, tornam-se essenciais para aplicações em saúde pública ou otimização agrícola que realmente atendam às populações rurais ou urbanas em desenvolvimento. Essa estratégia não é apenas técnica; ela carrega uma dimensão ética profunda, questionando se a tecnologia pode ser humanizada quando projetada a partir da periferia, e não do centro.

A Fábrica de Inovação e o Triunfo de Nearpays como Símbolo de Inclusão

Um exemplo concreto do impacto já visível vem da Fábrica de Inovação AI for Good, onde a startup nigeriana Nearpays foi coroada vencedora da edição de 2026 durante o Grand Finale em Genebra. Essa empresa de fintech impulsionada por IA foca na inclusão financeira na África, desenvolvendo uma solução SoftPOS que transforma smartphones comuns em dispositivos de aceitação de pagamentos, com a IA gerenciando operações e gerando insights de negócios. will.i.am, convidado como jurado, surpreendeu ao igualar o prêmio de vinte mil dólares para cada um dos três finalistas com recursos próprios, elevando o total de Nearpays para quarenta mil dólares, enquanto Doto Health e Nemocare, focadas em saúde, receberam vinte mil cada. Esse momento não é apenas uma vitória para uma startup africana — a primeira a conquistar o título global —, mas um sinal de que iniciativas globais podem amplificar vozes do Sul Global, trazendo inovação de base para o centro das discussões sobre o futuro da tecnologia.

Refletindo sobre isso, como seria se a IA fosse moldada por empreendedores que entendem as realidades de mercados emergentes, em vez de apenas por laboratórios em Silicon Valley? A Fábrica de Inovação, que já envolveu mais de mil startups de mais de oitenta países em algumas menções, demonstra que o talento e as ideias existem em todos os lugares, bastando fornecer as plataformas certas para que floresçam. Essa conexão entre o laboratório e programas de aceleração mostra que a teoria da inclusão ganha forma prática quando startups locais ganham visibilidade e recursos para escalar soluções relevantes.

Reflexões Filosóficas sobre a Democracia Tecnológica

À medida que a IA avança em direção a capacidades mais gerais e até máquinas humanoides, como mencionado nas declarações dos líderes, a colaboração internacional torna-se não apenas desejável, mas essencial para que o progresso permaneça responsável, inclusivo e centrado no humano. Aqui, podemos nos perguntar: em que medida a tecnologia reflete os valores de quem a cria, e como podemos garantir que ela amplie a autonomia humana em vez de restringi-la? O AI for Good Lab, ao priorizar a redução de desigualdades e a melhoria de vidas reais, convida a uma visão onde a IA não é um fim em si, mas um meio para sociedades mais justas. Conectando-se a tradições filosóficas que questionam o poder e a distribuição de recursos, essa iniciativa lembra que o futuro digital depende de escolhas coletivas feitas hoje, similar ao que foi explorado em guias de políticas públicas para a era da IA.

Com o AI for Good estabelecido desde 2017, organizado pela ITU com mais de cinquenta agências da ONU e abrangendo mais de cento e oitenta países, o laboratório representa a evolução de um esforço contínuo para integrar a tecnologia ao bem comum. Não se trata de impor soluções de cima para baixo, mas de capacitar nações a definir seus próprios caminhos, com suporte em avaliações, workshops e ferramentas alinhadas a padrões internacionais. Essa abordagem didática e prática desbuga o complexo universo da governança de IA, mostrando que por trás de cada algoritmo há decisões humanas que podem ser guiadas por princípios éticos.

A Caixa de Ferramentas: O Que Você Pode Fazer a Seguir

Agora que compreendemos os objetivos e o alcance do AI for Good Lab, o próximo passo é acompanhar as atualizações da ITU e da iniciativa AI for Good para ver como os hubs locais se desenvolvem nos países mencionados. Governos e organizações interessadas podem buscar parcerias através dos escritórios regionais, enquanto indivíduos curiosos podem explorar os programas de habilidades como a Fábrica de Inovação para submeter ideias ou participar de desafios. Em última análise, a verdadeira ferramenta é a consciência de que a IA do futuro será tão inclusiva quanto as vozes que a moldarem hoje — e cada um de nós pode contribuir para essa narrativa, seja apoiando iniciativas locais ou questionando como a tecnologia serve às nossas comunidades. Essa é a promessa de um mundo onde o potencial humano, combinado com ferramentas certas, gera resultados excepcionais para todos.