Em meados de julho de 2026, a SURF, a cooperativa de tecnologia da informação que atende a educação e a pesquisa na Holanda com suas 120 instituições membros, avança em pilotos práticos com soluções de código aberto para diminuir a dependência de grandes empresas de tecnologia como a Microsoft e a Google. O problema, ou o bug digital que muitos enfrentam, é a crescente interdependência construída ao longo dos anos, especialmente após a pandemia que forçou instituições a adotarem rapidamente ferramentas externas para continuar operando online. A solução que a SURF testa oferece um caminho concreto, migrando serviços como o Surfdrive para o Nextcloud e mantendo opções de IA em infraestrutura própria, permitindo que as organizações recuperem o controle sobre seus dados e operações sem precisar reconstruir tudo do zero.
A dependência digital que se formou na pandemia e persiste até hoje
A carta aberta publicada em maio de 2025, assinada por milhares de funcionários de universidades holandesas, destacou a necessidade urgente de reduzir a dependência de empresas como a Microsoft e a Google em até três anos, com o professor José van Dijck da Universidade de Utrecht afirmando que as universidades devem gerenciar sua própria infraestrutura digital. A pandemia serviu como o ponto de virada, quando a necessidade de educação online rápida empurrou as instituições para as plataformas das grandes techs, criando uma situação onde até o supercomputador Snellius em Amsterdã, o último centro de computação universitária restante, está lotado. Essa dependência não é apenas uma questão de conveniência, mas traz riscos reais à continuidade dos serviços em caso de interrupções, incidentes cibernéticos ou desenvolvimentos geopolíticos, como alertado em relatórios recentes. É como a piada clássica dos especialistas em sistemas legados de que 'se o mainframe funciona desde os anos 1960, por que mexer?', mas no contexto da dependência de Big Tech, a modernização através de open source é o que mantém a estabilidade a longo prazo – uma piada sem graça, claro, mas que reflete a mentalidade que precisa ser superada.
Para entender melhor o contexto, as etapas propostas na carta incluem inventariar e proteger serviços autônomos existentes e mapear vulnerabilidades críticas para desenvolver estratégias de saída, com o foco em experimentar alternativas de código aberto e priorizar ambientes de aprendizagem open source em contratos futuros. A SURF é destacada como ator chave para expandir serviços como o SURF Drive e testar essas alternativas, contrastando com países como a Alemanha onde o Nextcloud já é usado por cinquenta universidades. Essa abordagem colaborativa mostra que a soberania digital não é alcançada sozinha, mas através de cooperação entre instituições, semelhante ao que o plano da União Europeia propõe para incentivar o código aberto.
Os pilotos práticos da SURF com o Nextcloud como alternativa principal
O Nextcloud surge como uma das ferramentas centrais nos testes da SURF, onde o Surfdrive, que migrou de uma base OwnCloud, agora é utilizado por dezenas de milhares de pessoas nas instituições membros. A migração completa para o Nextcloud, que oferece workspace completo incluindo chamadas de vídeo, chat e calendários, foi oferecida a trinta instituições e já atende entre mil e quinhentos e dois mil usuários, demonstrando que a transição é viável com preparação adequada. Um exemplo concreto é a substituição da fundação OwnCloud pelo Nextcloud após seis meses de preparação, permitindo a migração de dezenas de milhares de usuários em um único fim de semana, o que prova que com planejamento as mudanças podem ser suaves e sem interrupções maiores.
Além do armazenamento de arquivos, o Nextcloud permite uma experiência completa de colaboração que rivaliza com soluções proprietárias, mas com a vantagem de ser open source e hospedado em infraestrutura controlada pela própria cooperativa. O programa manager Wladimir Mufty para valor público e soberania digital coletiva na SURF explica que esses pilotos surgiram de uma solicitação do programa de pesquisa AlgoSoc há quatro anos, mostrando como a demanda por alternativas vem crescendo dentro da comunidade acadêmica. Essa iniciativa não apenas resolve o bug da dependência, mas também fortalece a resiliência das operações educacionais e de pesquisa.
Explorando opções para vídeo e comunicação social com PeerTube e Mastodon
Para além do armazenamento e colaboração, a SURF testa o PeerTube como plataforma alternativa de vídeo, motivada por questões de moderação no YouTube que afetam tópicos sensíveis como pesquisas sobre drogas ou câncer de mama. Essa escolha permite que as instituições tenham mais controle sobre o conteúdo sem depender de políticas externas que podem limitar a disseminação de conhecimento importante. O Mastodon é outra ferramenta em piloto para redes sociais, oferecendo uma alternativa descentralizada que preserva a privacidade e a autonomia dos usuários acadêmicos.
Essas opções são testadas lado a lado com os serviços das grandes empresas de tecnologia, permitindo uma transição gradual onde as instituições podem comparar desempenho e adotar o que funciona melhor para suas necessidades específicas. A abordagem da SURF, que já tem trinta e oito de seus cinquenta serviços construídos com ou sobre software de código aberto, ilustra um compromisso prático com a soberania digital que vai além de palavras e entra no terreno das implementações reais.
O hub de inteligência artificial próprio e o desenvolvimento do GPT-NL
No campo da inteligência artificial, a SURF mantém um hub em infraestrutura própria que oferece modelos abertos como o Mistral e o GPT-NL, permitindo que as organizações troquem de modelo sem precisar reconstruir suas aplicações do zero. O GPT-NL, modelo de linguagem nacional desenvolvido pela TNO, pelo Instituto Forense dos Países Baixos e pela própria SURF, já completou o pré-treinamento e entrou em testes reais com cinco organizações desde o final de fevereiro de 2026, com planos de expandir para dez até a primavera de 2026. Com um orçamento público de 13,5 milhões de euros, o projeto inclui um acordo de licenciamento com a NDP Nieuwsmedia, a associação de editores de notícias holandeses, que é descrito como o primeiro acordo pago consensual mundial com todos os principais editores em um único mercado para treinamento de modelos.
Os casos de uso incluem o Gem, um assistente municipal virtual usado por quase trinta municípios que gerenciou cerca de setenta mil conversas em 2024, e o HIP, um assistente de comunicação para redigir cartas governamentais em linguagem simples. Outros testes envolvem a classificação de dados forenses no NFI e uso interno na TNO sob uma política de “Copilot, a menos que”. Os gerentes Frank Brinkkemper e Saskia Lensink lideram o esforço, com aconselhamento legal da professora Lokke Moerel da Universidade de Tilburg, e o conjunto de dados de treinamento do GPT-NL v1.0 será publicado no HuggingFace com metadados sobre conteúdo protegido por direitos autorais. Essa iniciativa mostra como a IA pode ser desenvolvida de forma soberana, com controle local sobre os dados e modelos.
O relatório das autoridades reguladoras e o chamado à autonomia digital em julho de 2026
No dia 10 de julho de 2026, a Administração Tributária holandesa pausou a implementação do Microsoft 365, coincidindo com a publicação de um relatório conjunto por cinco autoridades reguladoras – a Autoridade para Consumidores e Mercados, a Autoridade para os Mercados Financeiros, a Autoridade de Proteção de Dados, o Banco Central e a Autoridade para Infraestrutura Digital – intitulado “Rumo à autonomia digital”. O relatório, apresentado à Ministra para a Economia Digital e Soberania Willemijn Aerdts, recomenda que o governo agregue demanda por serviços digitais europeus e atue como cliente lançador, enquanto autoridades públicas e empresas considerem a autonomia digital como critério central nas compras de TI, exigindo padrões abertos, interoperabilidade e suporte para migração.
Essa posição destaca os riscos da dependência de um grupo seleto de provedores de TI, que podem afetar a continuidade devido a interrupções, incidentes cibernéticos e desenvolvimentos geopolíticos, além de restringir a liberdade de escolha e tornar as mudanças custosas. O relatório alinha-se com a transposição das diretivas DORA e NIS2, que entram em vigor em 15 de agosto. A SURF coorganizou uma cúpula de liderança em código aberto com o Ministério do Interior holandês, com a segunda edição planejada para 1 de outubro de 2026, expandindo para autoridades de água e governos provinciais, mostrando como o movimento ganha tração em diferentes setores.
Modelos de colaboração e exemplos de outros países que inspiram a mudança
Pesquisadores como Paul van Vulpen da Escola de Negócios de Amsterdã da UvA enfatizam que a soberania digital exige colaboração, pois organizações individuais não conseguem alcançá-la sozinhas, e alternativas de código aberto demandam expertise, tempo e custos que são melhor compartilhados. A SURF serve como modelo, gerenciando ICT para mais de cento e vinte universidades, universidades de ciências aplicadas, instituições de educação profissional secundária, centros médicos universitários e instituições de pesquisa acadêmica, onde os participantes determinam conjuntamente a política. A Aliança de Nuvem Aberta, formada por sete empresas holandesas de TI, trabalha em infraestrutura de nuvem soberana para o governo com acordos sobre código aberto e interoperabilidade para facilitar a troca.
Em janeiro de 2026, a Universidade de Groningen anunciou o objetivo de ser a primeira universidade “livre de big tech” na Holanda até 2030, e o especialista da SURF Tom Hoven discute os desafios, comparando a transição a trocar de iPhone para Android devido ao entrelaçamento profundo com as grandes empresas de tecnologia nas operações diárias. A recomendação é executar dois ambientes de TI simultaneamente durante a transição para manter as operações, experimentando novas soluções ao lado das antigas, o que requer investimento financeiro, flexibilidade organizacional, tempo e perseverança. Exemplos como a implementação do Nextcloud por cinquenta universidades alemãs servem de inspiração para o que é possível quando há cooperação europeia através de redes como a Géant.
Caixa de Ferramentas: passos práticos para sua instituição começar a jornada de soberania digital
Agora que você conhece a experiência da SURF e o contexto holandês, é hora de pegar as ferramentas e aplicar em sua realidade. Comece fazendo um inventário completo dos serviços autônomos existentes em sua organização para identificar o que já pode ser protegido e expandido sem depender de fornecedores externos. Em seguida, mapeie as vulnerabilidades críticas e desenvolva estratégias de saída para os serviços mais dependentes, priorizando experimentos com alternativas de código aberto em contratos futuros para ambientes de aprendizagem e colaboração.
Busque parcerias com cooperativas ou redes semelhantes à SURF para compartilhar custos e expertise, e explore colaborações europeias para fortalecer a posição coletiva. Lembre-se de que a transição deve equilibrar continuidade com inovação, mantendo os sistemas funcionando enquanto testa novas soluções em paralelo, como sugerido por especialistas no tema. Com esses passos, sua instituição pode reduzir riscos geopolíticos e recuperar o controle sobre a infraestrutura digital, garantindo que o legado de estabilidade dos serviços essenciais continue evoluindo de forma soberana e confiável.