Imagine, por um instante, que os circuitos que alimentam nossos sonhos digitais pudessem, eles próprios, sonhar. É essa sensação que emerge quando observamos a ASML anunciar vendas projetadas entre 43 e 45 mil milhões de euros para 2026, um salto sustentado pela fome mundial por chips capazes de sustentar modelos de inteligência artificial cada vez mais poderosos. O que antes parecia ficção científica — máquinas que aprendem, diagnosticam e auxiliam — agora se materializa em números concretos que atravessam continentes e redefinem o que consideramos possível no presente.
O otimismo da ASML e os limites da produção humana
No segundo trimestre, a empresa sediada em Veldhoven registrou vendas de 9,3 mil milhões de euros, contra 7,7 mil milhões no mesmo período de 2025, com lucros de 2,9 mil milhões de euros. O CEO Christophe Fouquet atribuiu diretamente o crescimento aos investimentos em IA que impulsionam a procura por semicondutores. A previsão para o terceiro trimestre já aponta entre 11 e 12 mil milhões de euros, enquanto a margem bruta esperada para o ano inteiro oscila entre 54 e 56 por cento. Essas cifras não são apenas resultados financeiros: elas traduzem o momento em que a capacidade de fabricar o silício que pensa começa a limitar — ou expandir — o ritmo da própria civilização digital. Que tipo de futuro construímos quando a velocidade da inovação depende literalmente da quantidade de máquinas que conseguimos colocar em operação?
A ASML planeja elevar em 30 por cento sua capacidade produtiva já em 2027, com possível expansão adicional em 2028, e estima que a China representará cerca de 20 por cento de suas vendas neste ano de 2026. Ações da empresa subiram 5,3 por cento após o anúncio. Tais movimentos convidam a uma reflexão quase filosófica: até que ponto a inteligência artificial é fruto de nossa criatividade e até que ponto ela se torna uma força autônoma que exige de nós, humanos, uma nova forma de humildade diante do que criamos?
A IA que cuida: a experiência da CUF e o reencontro com o humano
Enquanto a indústria dos chips celebra recordes, o grupo de saúde português CUF já colocou em produção entre 20 e 25 aplicações de inteligência artificial, segundo anunciou o CEO Rui Diniz na Conferência .IA realizada em 14 de julho de 2026 no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Entre os exemplos práticos estão o sistema Transpara, que analisa mamografias a um custo adicional de 15 euros e já integra o padrão de cuidado, além de software para radiografias ósseas em urgências e a assistente virtual Clara, que resolve 75 por cento dos casos de acompanhamento pós-cirúrgico ou pós-urgência sem necessidade de intervenção humana imediata. A empresa adquire soluções validadas para uso clínico e desenvolve internamente ferramentas voltadas à produtividade não clínica, sempre sob supervisão de um comité de IA presidido pelo próprio CEO e composto por áreas de sistemas de informação, jurídica e ética.
Essa abordagem não elimina o médico — ela o liberta de tarefas repetitivas para que possa dedicar-se ao que é irrepetível: o olhar que acolhe, a palavra que acalma, o gesto que reconforta. Quando um algoritmo identifica um padrão sutil em uma imagem de mama ou sugere o próximo passo em um pós-operatório, estamos diante de uma parceria silenciosa entre silício e sensibilidade. Que responsabilidades éticas surgem quando confiamos parte de nossa saúde a sistemas que não sentem dor, mas que podem antecipar sofrimentos evitáveis?
Wincode e a IA que organiza o cotidiano do trabalho
No dia seguinte, 15 de julho de 2026, a Wincode Software e Contabilidade S.A., sediada em Santa Maria da Feira, Portugal, promoveu um evento de formação via Zoom para apresentar a integração de inteligência artificial em suas soluções WHumanos e WGADMIN, com destaque para a assistente digital Matilde. A sessão, das 10h às 12h15, reservou tempo específico para demonstrar funcionalidades e casos reais de uso, encerrando com 45 minutos de perguntas e respostas. O que antes exigia horas de configuração manual agora pode ser orientado por uma voz sintética que aprende padrões de gestão de pessoas e administração de sistemas. A tecnologia deixa o laboratório e entra no escritório, transformando planilhas em conversas e processos burocráticos em fluxos quase intuitivos.
Essa chegada da IA ao software corporativo diário ecoa o mesmo movimento observado na fabricação de chips e na medicina: a máquina não substitui o humano, mas amplia sua capacidade de atenção e decisão. Quando um gestor de RH pode contar com Matilde para organizar dados e sugerir ações, ele ganha tempo para aquilo que nenhum algoritmo substitui — o julgamento ético, a empatia diante de conflitos, a visão estratégica que considera o contexto humano por trás de cada número. Como redefinimos o valor do trabalho quando parte dele migra para assistentes digitais que nunca se cansam?
Uma caixa de ferramentas para navegar a nova realidade
Os exemplos da ASML, da CUF e da Wincode mostram que a inteligência artificial já deixou o domínio da especulação e se instalou em cadeias produtivas, consultas médicas e rotinas administrativas. O próximo passo concreto é observar como cada organização escolhe integrar essas ferramentas sem perder de vista os comitês de ética, a validação clínica e a formação contínua das equipes. O leitor pode começar hoje mesmo questionando: em qual processo do meu dia a dia uma aplicação de IA traria mais tempo para o que realmente importa? A resposta, como estas histórias revelam, não está no futuro distante, mas nas escolhas que fazemos agora, com os dados e os valores que carregamos conosco.