O mercado brasileiro de Tecnologia da Informação passa por uma mudança de cenário. Depois da forte expansão registrada durante a pandemia, impulsionada pela digitalização e pelo aumento da demanda por profissionais, a criação de vagas com carteira assinada perdeu força. Em contrapartida, a abertura de empresas de desenvolvimento de software segue em ritmo acelerado, indicando uma migração crescente para o trabalho como pessoa jurídica (PJ).

Levantamento baseado em dados do Novo CAGED, da RAIS e do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ) mostra que, em 2021, o setor criou mais de 51 mil vagas formais líquidas para profissionais de desenvolvimento de software. Em 2025, esse número caiu para pouco menos de 11 mil e, entre janeiro e maio de 2026, foram registradas apenas 651 novas vagas.

Apesar da desaceleração nas contratações CLT, o número total de desenvolvedores empregados continua aumentando. Segundo a RAIS, o total de profissionais formais passou de cerca de 399 mil em 2024 para mais de 416 mil em 2025. O principal desafio está na entrada de novos profissionais, que encontram um mercado mais competitivo do que nos anos de maior expansão.

Os salários nominais também cresceram no período. A remuneração média de admissão passou de R$ 6 mil em 2021 para aproximadamente R$ 7,7 mil em 2026. No entanto, quando os valores são corrigidos pela inflação, o ganho real praticamente estagnou, indicando perda de poder de compra em comparação aos anos anteriores.

A retração afetou principalmente cargos ligados à programação. Funções como programador de internet e programador de sistemas registraram queda significativa nas admissões, enquanto posições mais especializadas, como engenheiros de software e engenheiros de sistemas, apresentaram maior estabilidade e continuam oferecendo os maiores salários do setor.

Regionalmente, São Paulo, que concentra a maior parte do mercado nacional, reduziu drasticamente seu ritmo de criação de vagas. Outros estados, como Rio Grande do Sul, Pernambuco e Espírito Santo, ainda apresentam saldo positivo de contratações, enquanto Paraná e Distrito Federal registraram queda no período analisado.

Ao mesmo tempo, o empreendedorismo na área de tecnologia atingiu níveis recordes. Entre 2021 e junho de 2026, quase 98 mil empresas de desenvolvimento de software foram abertas no país. A maioria dessas empresas possui apenas um sócio, reforçando a tendência de profissionais atuando como prestadores de serviço em vez de empregados com carteira assinada.

Os dados sugerem que o trabalho em tecnologia continua aquecido, mas com um modelo diferente daquele observado durante o boom da pandemia. Em vez de uma expansão baseada em contratações CLT, o setor passa por uma reorganização, com maior participação de empresas individuais e contratos no modelo PJ. Isso torna o acesso à primeira oportunidade mais difícil, ao mesmo tempo em que aumenta a demanda por profissionais especializados e com maior experiência.