A Fifa decidiu investir pesado em sensores, inteligência artificial e o VAR na Copa do Mundo 2026, e o resultado é uma enxurrada de controvérsias que vão desde expulsões polêmicas até ofícios de federações reclamando de abuso tecnológico. O problema central não é a existência dessas ferramentas, mas a falta de critérios claros para quando e como elas devem ser usadas, deixando jogadores, técnicos e torcedores confusos sobre o que realmente vale em campo.
A bola TRIONDA e o sensor que nunca dorme
A bola oficial TRIONDA carrega um chip de sensor inercial que funciona a 500 Hz, capturando movimentos da esfera e enviando dados em tempo real para o VAR. Essa frequência significa que o sistema registra quinhentas medições por segundo, permitindo detectar até contatos leves que antes passariam despercebidos, como aconteceu no gol da Croácia contra Portugal. A construção de quatro painéis com costuras profundas foi pensada exatamente para dar estabilidade ao sensor durante todo o jogo, sem comprometer a aerodinâmica que os jogadores esperam.
Quando a bola toca a mão ou o braço de um jogador, o sensor registra o impacto e transmite a informação quase instantaneamente para a equipe de arbitragem. Pierluigi Collina, responsável pela arbitragem da Fifa, defendeu que não há limite de distância ou tempo para as intervenções do VAR, porque a precisão dos dados justifica a revisão mesmo em lances antigos. Essa postura explica por que o número de intervenções já superou edições anteriores nas primeiras fases do torneio, que conta com cento e quatro jogos no total.
Avatares 3D criados por IA para decisões de impedimento
Desde janeiro de 2026 a Fifa anunciou que todos os jogadores seriam escaneados para gerar avatares tridimensionais usados exclusivamente nas análises de impedimento pelo VAR. Esses bonecos digitais são integrados ao sistema semiautomático de impedimento, que combina as imagens das câmeras com os dados da bola para mostrar ao árbitro a posição exata dos atletas no momento do passe. A inovação também melhora a transmissão para o público, porque permite que a visão do árbitro seja mostrada de forma mais clara nas telas de casa.
O sistema de Impedimento Semiautomático (SAOT), que utiliza tecnologia de rastreamento óptico da Hawk-Eye e infraestrutura de servidores da Lenovo, complementa esse trabalho monitorando cada atleta cinquenta vezes por segundo através de dezesseis câmeras instaladas em cada estádio. Os dados físicos e táticos são coletados em tempo real e servem tanto para a arbitragem quanto para análises posteriores de desempenho — estas últimas alimentadas no pós-jogo pela plataforma de IA generativa Football AI Pro, também desenvolvida pela Lenovo. Quando o sensor da bola e os avatares trabalham juntos, o tempo entre o lance e a decisão do VAR diminui, mas a precisão ainda depende de como os operadores interpretam as imagens geradas pela inteligência artificial.
As críticas que vieram do campo e das federações
Luka Modric foi um dos primeiros a apontar o uso incorreto ou seletivo da tecnologia, afirmando que o VAR às vezes intervém demais e outras vezes deixa passar lances semelhantes. A Federação Croata chegou a enviar um ofício oficial à Fifa reclamando de “abuso da tecnologia”, especialmente depois que o sensor detectou um toque mínimo no gol contra Portugal. Casos como o gol do Egito anulado por falta cometida na jogada anterior contra a Argentina nas oitavas de final mostram que a revisão pode recuar no tempo sem limite definido, gerando frustração em quem está dentro de campo.
A expulsão de Folarin Balogun, atacante dos Estados Unidos, também chamou atenção internacional e até de Donald Trump, porque o lance envolveu interpretação subjetiva mesmo com todos os dados disponíveis. Pierluigi Collina manteve a posição de que novas categorias de revisão foram adicionadas em parceria com a IFAB exatamente para dar mais ferramentas aos árbitros, mas jogadores e federações argumentam que a falta de transparência sobre os critérios transforma a tecnologia em uma caixa-preta em vez de uma aliada.
O que muda na prática para quem assiste e joga
Para o torcedor em casa, as transmissões agora trazem mais replays com sobreposições gráficas dos avatares e linhas de impedimento geradas automaticamente. Para os atletas, a presença constante de câmeras e sensores significa que cada movimento é registrado e pode ser revisto, o que aumenta a pressão por precisão mas também cria a sensação de que o jogo está sendo decidido mais em uma sala de vídeo do que no gramado. A integração entre o sensor de 500 Hz da bola e as reconstruções tridimensionais via visão computacional permite que o VAR tenha informações que antes dependiam apenas do olho humano, mudando a dinâmica de protestos e reclamações em campo.
Quando uma federação envia um ofício formal ou um jogador como Modric fala publicamente, fica claro que a tecnologia sozinha não resolve os problemas de arbitragem: ela apenas amplia o alcance das decisões e, ao mesmo tempo, expõe as inconsistências de aplicação. O aumento de intervenções nas primeiras fases do torneio já mostra que o sistema está sendo usado com mais frequência do que em edições anteriores, e isso exige que todos os envolvidos — jogadores, técnicos e torcedores — aprendam a ler os sinais que a tecnologia fornece.
Caixa de ferramentas: como acompanhar as decisões com mais clareza
Primeiro, preste atenção aos replays oficiais que mostram a linha de impedimento e o momento exato capturado pelo sensor da bola, porque eles revelam o critério usado na revisão. Segundo, acompanhe as explicações de Pierluigi Collina ou da comissão de arbitragem da Fifa após os jogos, pois elas indicam quais novas categorias de revisão estão sendo aplicadas. Terceiro, compare lances semelhantes dentro do mesmo torneio para identificar padrões de uso do VAR, em vez de julgar isoladamente cada decisão. Com essas três práticas simples você transforma a frustração em entendimento e passa a enxergar a tecnologia como uma ferramenta que ainda está sendo ajustada, não como um juiz infalível.