A busca por energia limpa e abundante para alimentar a explosão de data centers de inteligência artificial ganhou um capítulo novo e acelerado: os Estados Unidos e a China lideram uma corrida global por fusão nuclear com investimentos privados que somaram € 13 bilhões (cerca de US$ 15,1 bilhões) até o fim de 2025, um aumento de 30% registrado entre junho e setembro do mesmo ano. Essa tecnologia, que promete replicar o processo do Sol aqui na Terra para gerar eletricidade sem carbono e sem os resíduos de longa duração da fissão tradicional, saiu do laboratório e entrou no radar de grandes empresas de tecnologia que precisam de gigawatts extras para treinar modelos cada vez maiores. O que antes parecia ficção científica agora tem contratos de compra de eletricidade assinados e máquinas experimentais em construção acelerada.
A história por trás dos números: como a fusão saiu do papel
Para entender por que o financiamento privado saltou de forma tão expressiva, vale voltar algumas décadas e ver o caminho percorrido por projetos que começaram como experimentos isolados. Desde os anos 1950, laboratórios governamentais testavam conceitos de confinamento magnético e laser, mas os custos e os desafios técnicos mantinham o tema restrito a grandes agências estatais. O que mudou nos últimos cinco anos foi a entrada de capital de risco e de gigantes do Vale do Silício que enxergam na fusão uma solução de longo prazo para a demanda energética da IA. O relatório da Fusion for Energy da União Europeia, citado em julho de 2026, registrou que 85% desses € 13 bilhões (cerca de US$ 15,1 bilhões) estão concentrados em apenas dois países, com 53% destinados a empresas americanas e cerca de um terço a companhias chinesas. São 77 startups no setor no mundo todo: 42 nos Estados Unidos, 8 na China, 6 no Reino Unido e 4 na Alemanha.
No setor de tecnologia, a Google apoia a TAE Technologies há mais de dez anos e também investiu na Commonwealth Fusion Systems, empresa que já fechou contrato de compra de eletricidade futura; a Microsoft, por sua vez, assinou acordo com a Helion Energy, startup que conta com o apoio de Sam Altman, da OpenAI. Esses movimentos não são filantropia: são resposta direta à conta de luz que só cresce à medida que os data centers consomem mais energia do que muitas cidades médias. O paralelo com outras apostas nucleares recentes, como a reativação da usina de Three Mile Island pela Microsoft, mostra que a indústria de tecnologia está disposta a pagar caro por fontes confiáveis e limpas.
China acelera com dinheiro público enquanto EUA apostam no privado
Enquanto o modelo americano privilegia startups e investidores de risco, a China optou por injetar recursos públicos maciços em empresas estatais. No verão de 2025, o governo chinês aplicou US$ 2,1 bilhões em uma única empresa estatal de fusão — valor duas vezes e meia maior que o orçamento anual do Departamento de Energia dos Estados Unidos para o tema. Essa estratégia permite que projetos como o Burning Plasma Experimental Superconducting Tokamak (BEST), em Hefei, avancem da pesquisa fundamental para a engenharia em larga escala. A meta declarada é demonstrar ganho líquido de energia e geração de eletricidade por volta de 2030, conforme comunicado da Academia Chinesa de Ciências de janeiro de 2026. A máquina BEST e a instalação Shenguang 4, em Sichuan, que trabalha com ignição a laser, são exemplos concretos dessa aceleração.
Uma startup de Xangai, a Energy Singularity, publicou resultados de um ímã supercondutor similar ao da Commonwealth Fusion Systems, porém em tempo recorde, mostrando que o ritmo chinês também se beneficia de colaboração entre academia e indústria. O plano quinquenal 2026-2030 do país inclui a promessa de “medidas extraordinárias” para fusão, o que reforça a percepção de que Pequim trata a tecnologia como prioridade estratégica de segurança energética. Enquanto isso, a Alemanha prometeu mais de 2 bilhões de euros em investimentos públicos, e o projeto internacional ITER, com 35 países, deve entrar em operação entre 2034 e 2036.
O que muda na prática para quem depende de energia limpa
Para o leitor que trabalha com infraestrutura de TI ou que simplesmente paga a conta de luz corporativa, o desenvolvimento da fusão nuclear não é apenas notícia de laboratório. Significa a possibilidade de data centers operando com energia praticamente ilimitada, sem emissões de carbono e sem depender de combustíveis fósseis ou de usinas hidrelétricas sujeitas a variações climáticas. A projeção da Agência Internacional de Energia (IEA) de mercado superior a US$ 350 bilhões até 2050 dá dimensão do tamanho da oportunidade, mas também indica que quem chegar primeiro terá vantagem competitiva duradoura. Empresas que já assinam contratos de compra de eletricidade de futuras usinas de fusão estão, na prática, travando o preço da energia para as próximas décadas.
Se você acompanha o consumo crescente dos modelos de IA, já percebeu que a conta de energia é um dos principais gargalos. A fusão nuclear oferece uma saída que não compete com fontes renováveis intermitentes e que pode funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana. O caminho ainda é longo — nenhum reator comercial de fusão está em operação —, mas os marcos técnicos estão sendo batidos em ritmo mais rápido do que há dez anos. O próximo passo concreto que o leitor pode acompanhar é a evolução dos experimentos BEST na China e os resultados dos contratos assinados por Google e Microsoft com startups americanas.