Imagine acordar e descobrir que as ferramentas de inteligência artificial mais poderosas do mundo simplesmente pararam de funcionar para você, sem aviso, sem recurso e sem que seu governo tivesse votado nada a respeito. Foi exatamente isso que aconteceu em junho de 2026 quando uma diretiva de controle de exportação do Departamento de Comércio americano determinou que a Anthropic bloqueasse o acesso aos modelos Mythos 5 e Fable 5 para todos que não fossem cidadãos dos Estados Unidos. Francesca Bria, assessora da Comissão Europeia e fundadora da EuroStack, conversou com Patrícia Campos Mello no Future Affairs Forum no Rio de Janeiro e deixou claro: o botão de desligar existe e está nas mãos de Washington.

Quando a tecnologia se torna alavanca de poder geopolítico

Francesca Bria não fala de ficção científica quando menciona o risco de uma desativação repentina; ela cita fatos concretos como a suspensão do acesso do procurador Karim Khan, do Tribunal Penal Internacional, aos serviços da Microsoft (embora a empresa conteste ter feito um bloqueio direto) e o uso estratégico de Starlink e Palantir em conflitos recentes. Cada um desses episódios mostra que plataformas construídas em território americano podem ser desligadas ou limitadas por decisão unilateral, sem que os usuários europeus ou de outros continentes tenham qualquer voz. A pergunta que fica é: até que ponto continuamos delegando decisões críticas sobre saúde, justiça e educação a sistemas que podem ser cortados da noite para o dia?

A União Europeia respondeu a esse risco anunciando, na semana anterior à entrevista, um pacote de leis de soberania tecnológica baseado justamente na iniciativa EuroStack criada por Bria. Entre as medidas estão a Lei de Desenvolvimento de Nuvem e IA, a segunda Lei de Chips, uma estratégia de código aberto e um contrato de 180 milhões de euros para construir nuvem soberana própria. Essas ações não são apenas burocracia; são tentativas de reconquistar o controle sobre os dados que alimentam os algoritmos que, cada vez mais, decidem quem recebe crédito, quem é monitorado e quem tem acesso a oportunidades.

A urgência de infraestruturas que pertençam a quem as usa

Bria enfatiza que a soberania digital não é isolamento, mas sim a capacidade de escolher parceiros e manter jurisdição sobre as próprias informações. O exemplo do Pix, com 93% de penetração entre adultos no Brasil, é citado como prova de que é possível construir sistemas de pagamento e infraestrutura digital nacionais que funcionem em escala e tragam independência. Quando uma nação controla seus próprios fluxos de dados, ela reduz a exposição a leis extraterritoriais como o Cloud Act americano, que permite que tribunais dos EUA acessem informações armazenadas em qualquer lugar do mundo por empresas americanas.

Essa reflexão ganha ainda mais peso quando pensamos nos dilemas éticos que já vivemos: algoritmos que decidem quem merece um empréstimo, que curadoria cultural chega até nós e até mesmo quais conteúdos são considerados seguros ou perigosos. Se o acesso a esses sistemas pode ser revogado por razões de segurança nacional decididas em outro continente, perdemos não apenas conveniência, mas uma parcela significativa de nossa autonomia coletiva. A conversa de Bria nos lembra que o futuro do trabalho, da privacidade e da própria democracia depende de quem controla as chaves da infraestrutura digital.

O que podemos fazer diante desse cenário

A Caixa de Ferramentas que Bria oferece não é um manual técnico, mas um convite à ação coletiva: apoiar políticas de código aberto, investir em nuvens regionais e exigir transparência sobre onde nossos dados são processados. Para quem trabalha com IA ou depende dela no dia a dia, a lição prática é clara: diversificar provedores, priorizar soluções que respeitem a jurisdição local e participar dos debates sobre regulamentação antes que o botão seja apertado novamente. A soberania digital deixa de ser um conceito abstrato e se torna uma condição para que continuemos a decidir nosso próprio futuro.