No dia 24 de junho de 2026, durante a conferência ISC.AI 2026 em Pequim, Zhou Hongyi, fundador da 360 Security Technology, apresentou as ferramentas Yitian Tulong: Tulongfeng, que automatiza a descoberta de vulnerabilidades em software, e Yitianzhen, voltada para defesa cibernética automatizada e resposta a incidentes. A empresa chinesa descreveu o Tulongfeng como a versão local do Mythos da Anthropic, modelo que a Anthropic manteve restrito por razões de segurança. Se a alegação de equivalência for verdadeira, então a China estaria fechando parte da lacuna tecnológica em cibersegurança baseada em IA; se não for, o anúncio se resume a uma estratégia de comunicação sem base verificável independente.
Desmontando a alegação de equivalência técnica
A 360 Security Technology afirmou que o Tulongfeng encontrou 3.432 vulnerabilidades de software, das quais 105 foram confirmadas por autoridades chinesas. Reuters, Quartz, Cryptopolitan e outras publicações citam a mesma transcrição da empresa, mas todas registram que não foi possível verificar esses números de forma independente. Se 3.432 vulnerabilidades descobertas soam impressionantes, então é preciso perguntar quantas delas são novas, quantas são críticas e qual o critério de confirmação usado pelas autoridades locais; caso o critério seja opaco, o número perde força como prova de superioridade ou paridade com o Mythos.
Zhou Hongyi reconheceu uma diferença de 20% a 30% na capacidade base dos modelos domésticos chineses em relação aos ocidentais. Ele defendeu, portanto, a abordagem de agentes que combinam modelos de IA com expertise proprietária em segurança, bases de dados de vulnerabilidades e ferramentas automatizadas. Se a lacuna de 20-30% existe de fato, então a estratégia de agentes torna-se o caminho lógico para compensar; caso contrário, a menção à lacuna serve apenas para justificar o investimento em conhecimento em vez de puro poder computacional.
Contexto da corrida por IA em cibersegurança
A apresentação ocorre em meio a relatos de que grupos ligados à China já utilizam IA para automatizar operações de ciberespionagem, conforme reportado anteriormente em relatórios e investigações conjuntas da Microsoft e da OpenAI. Se a 360 Security Technology agora oferece ferramentas que automatizam descoberta de falhas, então surge a pergunta sobre quem terá acesso a esses agentes e com que finalidades; se o uso for predominantemente defensivo, o impacto é positivo para a infraestrutura global, mas se for ofensivo, amplia-se o risco de escalada assimétrica.
Zhou também destacou o risco de transparência unidirecional, no qual modelos ocidentais avançados seriam acessíveis a atores chineses enquanto o inverso não ocorreria. Se essa assimetria for real, então a aposta em agentes locais com conhecimento proprietário é uma resposta racional; senão, a narrativa serve para pressionar por maior abertura ou subsídios governamentais.
Caixa de ferramentas: como avaliar anúncios semelhantes no futuro
Primeiro, exija sempre a fonte primária da transcrição ou relatório técnico, como fez a Reuters ao citar o material da 360. Segundo, verifique se números de vulnerabilidades descobertas incluem confirmação independente por terceiros neutros ou apenas autoridades locais. Terceiro, compare a abordagem de agentes com o desempenho real em benchmarks públicos de cibersegurança, quando disponíveis. Ao aplicar esses três passos, você transforma comunicados corporativos em dados verificáveis e reduz o risco de tomar decisões baseadas em promessas não comprovadas.