A KPMG retirou do ar seu relatório “Redefining excellence in the age of agentic AI”, publicado em outubro de 2025, após auditoria independente revelar que apenas cinco das 45 citações estavam corretas e que cerca de metade das afirmações factuais eram falsas ou atribuídas a fontes erradas. O problema surgiu porque o documento foi produzido com auxílio de IA sem verificação humana adequada, gerando alucinações que distorceram dados sobre uso de IA por empresas e órgãos públicos.

O que exatamente foi encontrado no relatório

Uma análise forense realizada pelo grupo GPTZero mostrou que o texto continha afirmações inventadas, como a de que a Emirates havia adotado um chatbot móvel chamado Sara capaz de alterar reservas de voo, quando na verdade Sara é apenas um robô assistente físico lançado em 2023 sem essa funcionalidade. Citações sobre implantações de IA agentic em UBS, Swiss Federal Railways, Transport for London e UK’s National Health Service foram negadas ou consideradas enganosas pelas próprias organizações mencionadas.

O relatório também apresentava contradição interna: afirmava que 55% dos CEOs consideravam a IA sua principal prioridade de investimento, enquanto o próprio estudo da KPMG de 2025, o CEO Outlook, apontava 71% para o mesmo dado. Essa inconsistência reforça a importância de cruzar informações geradas automaticamente com fontes primárias verificadas.

Por que as alucinações de IA acontecem e como identificá-las

Alucinações ocorrem quando modelos de linguagem preenchem lacunas de conhecimento com informações plausíveis, porém inventadas, porque eles preveem palavras prováveis em vez de consultar fatos reais. No caso da KPMG, a ausência de revisão humana permitiu que essas invenções passassem despercebidas até a publicação, expondo a empresa a críticas de integridade.

Um caso semelhante dentro da própria KPMG já havia chamado atenção em fevereiro de 2026, quando um sócio foi multado por usar ChatGPT em uma prova sobre IA; o episódio mostra que o problema de dependência excessiva de ferramentas automáticas não é isolado e exige políticas claras de uso responsável.

Impacto na confiança e na interoperabilidade de dados corporativos

Quando relatórios de consultoria contêm dados falsos, toda a cadeia de decisão que depende deles fica comprometida: clientes, reguladores e parceiros perdem a capacidade de comparar informações de forma confiável, enfraquecendo a “diplomacia digital” entre sistemas e organizações. A KPMG reconheceu o erro e retirou o material enquanto investiga, reiterando sua diretriz de que todo conteúdo gerado por IA deve passar por supervisão humana para validação de fontes independentes.

Esse tipo de incidente não é exclusivo da KPMG; no mesmo período, a EY também retirou um relatório sobre programas de fidelidade que continha notas de rodapé falsas geradas por IA, demonstrando que o desafio de manter precisão em documentos corporativos é sistêmico.

Caixa de Ferramentas: passos práticos para evitar alucinações em seus documentos

Primeiro, sempre exija que a IA liste as fontes exatas de cada afirmação e verifique manualmente pelo menos três delas antes de usar o conteúdo. Segundo, cruze dados com relatórios oficiais da própria empresa ou órgão citado, como o CEO Outlook da KPMG que contradizia o relatório problemático. Terceiro, implemente um processo de revisão em dupla: uma pessoa redige ou edita com IA e outra, sem acesso ao prompt original, checa apenas os fatos. Por fim, mantenha registro de todas as verificações para auditoria futura, transformando a interoperabilidade entre ferramenta de IA e processos humanos em uma ponte confiável em vez de um ponto de falha.