A britânica Space Forge anunciou que vai investir cerca de 20 milhões de euros para construir uma fábrica de semicondutores em Portugal. A obra começa em 2027. A empresa, que já abriu uma filial em Santa Maria, nos Açores, quer usar o país europeu como base para processar componentes fabricados no espaço.
Não é de hoje que acompanhamos o crescimento do mercado de tecnologia em Portugal, mas a proposta desta vez foge da rota tradicional de empresas de software e call centers. Nos meus 15 anos fuçando a infraestrutura invisível dos bancos, me acostumei a ver mainframes suando em salas refrigeradas no subsolo de São Paulo. A base de tudo isso é o silício. Fazer chips na Terra exige temperaturas altíssimas e um gasto de energia violento. A nossa gravidade puxa as impurezas para dentro da estrutura do cristal durante a fabricação. É um problema físico antigo que limita a eficiência dos componentes responsáveis por processar desde a sua fatura do cartão de crédito até os servidores modernos em nuvem.
Desbugando a microgravidade
A Space Forge quer resolver esse limite físico tirando a fábrica da Terra. Eles usam satélites, como o Forgestar-1 lançado no ano passado em um foguete da SpaceX, para produzir cristais de semicondutores em órbita. Lá em cima, a microgravidade — o estado onde as coisas parecem não ter peso — impede que essas impurezas terrestres se misturem ao cristal em formação.
O resultado é um componente materialmente mais puro. A empresa calcula que essa pureza reduz em 60% a energia necessária para fabricar os componentes quando comparado aos métodos industriais terrestres. Enquanto gigantes como a Intel aceleram a produção de chips de 2 nanômetros no Arizona espremendo os limites da física aqui embaixo, a Space Forge aposta no vácuo espacial. É quase como trocar o tradicional fish and chips britânico por silicon chips com bacalhau. Eu avisei que as minhas piadas não iam melhorar.
Como a mercadoria volta?
Fazer a peça no espaço é apenas uma parte do problema. A outra é trazer o material de volta sem derreter tudo na reentrada atmosférica. Para isso, a equipe de engenharia desenvolveu um escudo protetor chamado Pridwen. Esse equipamento permite que os satélites atravessem a atmosfera sem queimar e pousem com segurança. A filial nos Açores serve exatamente para coordenar essa recuperação no meio do Oceano Atlântico.
Lewis D’Ambra, diretor de comunicação da empresa, explicou que o país tem o quadro regulatório e a posição geográfica exata para facilitar esse modelo de envio e resgate espacial. A operação toda custa caro. A empresa britânica levantou 27 milhões de euros em maio do ano passado com fundos como o NATO Innovation Fund, além de ter recebido um apoio de 9 milhões de euros da Agência Espacial Europeia.
A caixa de ferramentas
A fase de testes com os satélites já está rodando e a montagem da estrutura física tem data marcada. A ideia da diretoria é iniciar a construção da fábrica em território português em 2027 para ganhar escala comercial. O próximo passo da Space Forge é planejar a produção de veículos espaciais inteiros diretamente no país, em vez de apenas processar os materiais que caem de volta no oceano.