O Google anunciou nesta semana uma atualização no AI Mode e no AI Overviews da sua Busca, passando a incluir resumos de discussões online, redes sociais e fontes primárias diretamente nas respostas geradas. Enquanto as empresas de tecnologia correm para injetar dados humanos nas máquinas, um problema analógico ameaça o avanço das ferramentas: a nossa preguiça. O comportamento, batizado no mercado de tecnologia de Lazy Prompting, ocorre quando o usuário digita comandos genéricos e espera que o algoritmo adivinhe exatamente o que ele precisa.

A síndrome dos passageiros de Axiom

Lembre-se da nave Axiom, do filme Wall-E, onde os humanos flutuam em cadeiras planadoras e dão ordens curtas para telas enquanto máquinas tomam decisões. O Lazy Prompting nos empurra para o mesmo destino. Comandos como 'escreva um e-mail para o chefe', 'faça um texto sobre economia' ou 'me ajude com isso' geram respostas rasas. A consequência imediata é o retrabalho constante e a criação de uma dependência da inteligência artificial, onde o usuário aceita um texto gerado por estatística como a versão final de sua ideia.

Esse esvaziamento da comunicação não atinge apenas quem escreve e-mails. Ele se infiltra na criação de softwares, impulsionando práticas como o Vibe Coding, onde desenvolvedores montam sistemas inteiros usando IA sem entender a base do código. A facilidade cria uma ilusão de produtividade e entrega um produto opaco e difícil de manter.

O milagre das três palavras

Ricardo Pupo Larguesa, apresentador do Desbugados e autor do livro Engenharia de Prompt para Devs, o mais vendido da editora Casa do Código em 2024 e 2025, afirma que a prática vem de quem espera que a máquina faça um milagre. Ele cita o clássico comando 'escreva um artigo' como o atestado de óbito da originalidade. A IA opera com base em probabilidade de palavras. Se você não fornece o recorte, o tom de voz e o objetivo da tarefa, ela entregará a média exata do que existe na internet: um conteúdo previsível.

Para o futuro imediato, empresas como o Google tentarão compensar a preguiça dos usuários rastreando o que pessoas reais estão dizendo em fóruns e redes sociais. Mas o comando ainda precisa vir do usuário. A máquina constrói o palco, mas quem dirige o filme é a pessoa sentada na cadeira. Caso contrário, nos tornaremos espectadores consumindo roteiros criados por algoritmos, como nos episódios de Black Mirror onde a realidade é roteirizada por avatares virtuais.

Como desbugar a comunicação com a IA

Para extrair o melhor das novas ferramentas de automação, Ricardo Pupo Larguesa sugere tratar a inteligência artificial como um funcionário recém-contratado. Ele é rápido, mas não conhece o seu negócio nem a sua forma de pensar.

  1. Alonge a conversa: Use a preguiça de forma inteligente. Em vez de pedir o texto pronto, peça para a IA fazer perguntas sobre o tema antes de começar a escrever para gerar um contexto denso.
  2. Defina o papel: Diga à máquina quem ela é na conversa. Escreva algo como 'atue como um analista financeiro com 10 anos de experiência e avalie esta planilha'.
  3. Delegue a estrutura, não a alma: Peça à IA para montar tópicos, organizar dados ou revisar a gramática. As opiniões, o ângulo da história e as referências precisam ser suas.

Seja no novo AI Overviews do Google ou no ChatGPT, o resultado final reflete os dados fornecidos no início. A inteligência artificial executa ordens matemáticas, ela precisa que você escreva exatamente as regras do que será criado.