Com menos de US$ 20, uma inteligência artificial conseguiu rastrear 33 mil remessas de semicondutores saindo dos Estados Unidos, passando por Shenzhen e Hong Kong, até aterrissarem nos drones usados pela Rússia e pelo Irã. O valor da carga superava US$ 240 milhões. A descoberta não foi feita por espiões em campo, mas por algoritmos que varrem registros da internet de forma contínua. O problema aqui, ou o bug que precisamos entender, é como informações comerciais aparentemente inofensivas se transformam em provas de espionagem geopolítica quando lidas em conjunto.

A máquina de ler o mundo

A Strider Technologies, uma empresa sediada em Utah, estruturou um negócio altamente rentável a partir de um limite físico: nós geramos dados em uma velocidade que o cérebro humano não consegue acompanhar. Para resolver isso, os fundadores Greg e Eric Levesque criaram uma plataforma baseada em OSINT. Vamos desbugar o termo. OSINT, ou Inteligência de Fontes Abertas, significa coletar informações legais e acessíveis a qualquer pessoa. Pense em registros corporativos de uma junta comercial, manifestos de importação ou relatórios governamentais. A mudança de paradigma da Strider foi adicionar um agente de inteligência artificial que executa o processo em escala global no modelo de zero toque, sem intervenção humana desde a busca até o relatório final.

Essa capacidade de ligar os pontos isolados tornou o serviço uma necessidade para grandes corporações. Oito das dez maiores empresas do ranking Fortune 500 pagam para acessar a plataforma da Strider, que atingiu uma avaliação de US$ 450 milhões em setembro de 2024 e, desde então, quase triplicou sua receita. O governo americano entrou na mesma lógica. A Força Aérea assinou um contrato de US$ 8 milhões com a startup, e a OTAN utiliza a ferramenta para mapear riscos na cadeia de suprimentos militar. Esse apetite das lideranças por investimentos e inovações que aceleram o processamento de dados expõe uma realidade nua e crua: as corporações terceirizaram o setor de investigação para as máquinas.

O limite da guerra digital

A aplicação prática dessa varredura gera conflitos tangíveis no mercado imobiliário e logístico. Em 2023, o estado de Utah proibiu cidadãos e empresas da China, Rússia, Irã e Coreia do Norte de adquirirem terras na região. O algoritmo da Strider precisou atuar ativamente ao analisar a tentativa de compra de um autódromo na cidade de Grantsville, localizada a 64 quilômetros de Salt Lake City e posicionada muito perto de um depósito de munições do Exército. Os dados públicos revelaram que a compradora, a Mitime Utah Investment LLC, operava como uma subsidiária do conglomerado chinês Geely Holding Group. O governo local bloqueou a venda imediatamente. Em um momento em que tecnologias originárias da China desafiam abertamente o domínio ocidental, os bancos de dados funcionam como a primeira trincheira de defesa.

A sua caixa de ferramentas

Até que ponto o controle humano existe quando rastros públicos contam as histórias que as companhias tentam omitir? A ficção científica alertou a sociedade sobre a vigilância do Estado, mas a realidade mostra que a extração de informações foi privatizada. Para você, profissional ou gestor, a lição prática impõe mudanças de hábito, pois a auditoria digital deixou de ser exclusividade de grandes bancos.

Sua estratégia exige uma revisão contínua dos registros públicos vinculados ao seu negócio. Verifique os contratos dos seus parceiros diretos e exija transparência sobre quem compõe o quadro societário das empresas que fornecem infraestrutura para sua operação. Enquanto discutimos a privacidade dos nossos celulares, empresas como Strider, Sayari e Datenna operam em dezenas de países e cruzam bilhões de documentos abertos todos os dias para definir quem assina e quem perde os maiores contratos governamentais do mundo.