A Serpente que Conquistou o Mundo: Documentário Desvenda a História do Python

Em um universo digital que se move na velocidade da luz, 34 anos é uma eternidade. É o tempo que muitas tecnologias levam para nascer, atingir o auge e desaparecer no esquecimento. Mas não para o Python. Um novo documentário de 84 minutos, produzido pela Cult.Repo e meticulosamente elaborado pela cineasta Ida Bechtle, nos convida a uma viagem no tempo para desvendar a história da linguagem de programação mais popular do planeta. Conforme reportado pelo The New Stack, o filme conta com a presença do seu criador, Guido van Rossum, que nos guia pela jornada improvável de um projeto pessoal de Natal que alterou o curso da tecnologia.

Um Hobby de Fim de Ano

Para entender como o Python se tornou um colosso, o documentário nos leva de volta a 1987, ao centro de pesquisa holandês CWI. Lá, um jovem Guido van Rossum trabalhava em uma linguagem de programação para ensino chamada ABC. O projeto, no entanto, foi abruptamente cancelado, deixando van Rossum desapontado após três anos e meio de trabalho. Transferido para desenvolver utilitários para o sistema operacional distribuído Amoeba, ele se viu diante de um dilema: usar C seria demorado demais e a linguagem ABC era muito abstrata. “Pensei: ‘Bem, deveria haver uma linguagem que preenchesse a lacuna entre C e o shell’”, relembra van Rossum no filme. E assim, durante as férias de Natal de 1989, nascia o Python.

A Conquista da América e os Heróis Anônimos

A história do Python é, fundamentalmente, uma história de comunidade. O documentário destaca como a linguagem cruzou o Atlântico graças a entusiastas como Ken Manheimer e Michael McLay, do NIST (National Institute of Standards and Technology). Eles se apaixonaram pela simplicidade do Python e organizaram a primeira conferência de usuários em 1994, um evento modesto com 20 pessoas em um “prédio governamental sem janelas”, como recorda Paul Everitt, um dos primeiros a adotar a tecnologia e hoje defensor do Python na JetBrains. Everitt afirma que “as pessoas que colocaram Guido naquela sala são os heróis anônimos do Python”.

Foi nesse evento que o destino da linguagem mudou. Um dos convidados era Barry Warsaw, que trabalhava na Corporation for National Research Initiatives (CNRI), uma organização sem fins lucrativos fundada por Bob Kahn, o cocriador dos protocolos TCP/IP. A CNRI, segundo o documentário, tinha a missão de “cultivar coisas baseadas na internet”. O resultado? Guido van Rossum foi contratado para trabalhar em tempo integral no Python nos Estados Unidos. “Para mim, foi fantástico”, diz van Rossum.

Dramas Corporativos e o Nascimento da Fundação

Mas a jornada não foi um mar de rosas. A equipe principal do Python, incluindo van Rossum, deixou a CNRI por uma startup chamada BeOpen, que se revelou “completamente incompetente”, segundo o criador do Python. Com os salários atrasados, a salvação veio da empresa de Paul Everitt, a Digital Creations (que mais tarde se tornaria a Zope). Everitt, cuja aplicação comercial dependia criticamente do Python, não podia deixar a linguagem morrer. “Se o Python morresse, sabe quem mais morreria?”, questiona ele no filme, referindo-se à sua própria empresa.

Essa crise teve um resultado fundamental. Para evitar que qualquer empresa tentasse se apropriar da linguagem, foi criada a Python Software Foundation (PSF), uma organização sem fins lucrativos para administrar a propriedade intelectual e guiar o futuro do Python. Segundo Everitt, a verdadeira mágica aconteceu com a criação da PyCon, a conferência anual que gerou receita para a Fundação, permitindo investimentos em infraestrutura e no crescimento da comunidade.

A Ascensão na Ciência e na Inteligência Artificial

O documentário também explora um pilar do sucesso do Python: sua adoção pelas comunidades científica e de engenharia. Peter Wang, cofundador da Anaconda, destaca a abertura de Guido a ideias de não programadores. A Anaconda surgiu para resolver um grande problema: a complexidade de instalar bibliotecas científicas que dependiam de código em C++ e Fortran. Ao criar um instalador de um clique, eles, nas palavras do cofundador Travis Oliphant, “tornaram o Python super popular”.

Esse ecossistema robusto pavimentou o caminho para o domínio do Python em machine learning, com pacotes como TensorFlow e PyTorch. Como aponta o desenvolvedor de núcleo Benjamin Peterson, existem “séculos de tempo de engenharia” embutidos nessas bibliotecas, disponíveis instantaneamente.

Aposentadoria do Ditador e o Futuro

O filme não foge de controvérsias, abordando a difícil transição do Python 2 para o Python 3 – com um destaque para a história de Lisa Roach, engenheira da Meta que liderou uma das maiores migrações do mundo. Também explora o debate em torno do “operador walrus” (:=), uma mudança que gerou tanta polêmica que levou Guido van Rossum a renunciar ao seu posto de “Ditador Benevolente Vitalício” (BDFL).

A comunidade, então, precisou aprender a se governar, estabelecendo um conselho de cinco pessoas para tomar as decisões. É uma prova de maturidade. “Você tem que estar disposto a evoluir”, comenta Barry Warsaw.

Ao final, a produção captura a dimensão quase inacreditável dessa história. “Guido van Rossum passou duas semanas no Natal de 1989 escrevendo uma linguagem de programação porque achou que seria divertido”, maravilha-se Benjamin Peterson. “Quem imaginaria que isso seria algo que alteraria tanto a vida – e também o mundo?”. Agora, essa saga está imortalizada, mostrando que, às vezes, os projetos mais transformadores começam sem grandes pretensões, apenas com a vontade de resolver um problema.